Meu eu encadernado

Pra minha mãe, que um dia me deu esse caderno e disse: “para de encher a paciência e vai passar o tempo!”. O tempo ainda tá passando

Tá vendo esse caderno? Ele me salvou algumas vezes. Vou explicar melhor.

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Hoje, dia 1 abril de 2016, faz dois anos que eu escrevo nele. Tal caderno já passou por: três términos de relacionamentos, o ensino médio, um acesso à faculdade, brigas e reconciliações com os pais, algumas viagens, declarações de amor nunca lidas, muitos filmes, manifestos de revolta contra eu mesmo, orações e uma porrada de porradas.

Comemoro esse aniversário com a certeza de que, após minha entrada no universo da escrita, me sinto mais leve e verdadeiro. Acredito muito que transpassar sentimentos e ideias pro papel ou pro computador são formas de se expor e dialogar. Nos tempos sombrios nos quais estamos passando, me parece que o diálogo, consigo próprio e com os outros, iguais, é um ato de subversão.

Apesar de todos esses aspectos que aparecem, anseio em dizer que escrever me deu liberdade. Sinto que existo, de maneira inteira e democrática (realidade que vem sendo fortemente atacada, infelizmente), quando pego a caneta. Quase um ritual de autoconhecimento. Nas linhas eu existo sem medo de ser. Não tem problema errar plural, ter letra feia ou usar parágrafo com mais ou menos linhas do que o outro.

Sempre que começo a escrever, chega à minha mente alguns pensamentos de pessoas que me inspiram muito a continuar andando por esse caminho de lápis e papel. De maneira breve, posso listá-los aqui:

Rashid – Rapper – “Diário de Bordo (Parte V)”

Quanto mais eu esvazio minha caneta, mais ela pesa.”

Criolo – Rapper – “É o Teste”

“Caneta e caderno, minhas armas descrevi.”

Daniel Gaivota – Professor de Filosofia – Uma de suas muitas aulas que me encantaram

“Uma folha em branco, na realidade, não está ali pra ser preenchida, mas sim pra ser esvaziada.”

Sugiro que vocês tenham um lugar pra esvaziar as canetas. Foi uma das melhores coisas que aconteceu aqui desse lado da Zona Norte carioca.

Parabéns pro caderninho, estou salvo. Apesar de ninguém te ler, eu aprendi a me expor.

PS: o símbolo na capa é o “num”, letra “N” do alfabeto hebraico e tem como significado “Nazareno”. Em certa ocasião, cristãos do Iraque tiveram suas casas e negócios marcados com tal símbolo. Identificados, eram obrigados a seguir o caminho da ISIS, fugir ou morrer. Serve como uma lembrança, pra me mostrar que o pulso ainda pulsa e que eu preciso continuar falando, escrevendo e me movimentando.

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As adversidades da mulher contemporânea em 8 filmes

Uma análise da feminilidade no cinema do século XXI. A mulher em seus confrontos contra o mundo, contra a moral e contra si mesma. A partir de oito filmes contemporâneos, conhecemos personagens com um grau de representatividade importantíssimo, sob o pano de fundo situações que vão desde banais à extremamente adversas, como aborto, solidão, homossexualidade, prostituição, gênero, classe social, patriarcalismo e maternidade.

Cinco Graças (Mustang, 2015)

As mulheres que não são mais meninas

Em um vilarejo turco, cinco irmãs – a mais nova, uma criança, e mais velha, quase adulta – vivem presas sob as normas patriarcais, conservadoras e machistas de sua família. Presas não apenas fisicamente, como psicologicamente. Vítimas de uma criação à cabresto, com seus casamentos arranjados e educação para servir de dona de casa, as “cinco graças” são flores desabrochando, mas que se vêem obrigadas a abrir mão de suas feminilidades. A mais nova sonha em ir ao estádio de futebol, numa partida exclusiva para mulheres. Ela e as meninas do vilarejo se reunem e pegam o ônibus à Istambul; já sua irmã mais velha foge à noite pra encontrar o namorado. A saída da “caverna” é o que há de mais significativo para as meninas que cresceram sob restrições. É dever da família estimular a menina a ser mulher. Deixe-a crescer, errar e experimentar. Uma cineasta leva ao Oscar de 2016 um filme com e sobre mulheres, para as mulheres.

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Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011)

A mulher que odeia ser mãe

Precisamos Falar Sobre Kevin é uma história de uma família que fracassou por conta de seu bebê, e de um bebê que fracassou por conta de sua família.

Eva nunca quis ter um filho. Seu marido insistia, ela refutava. Os motivos? Era independente, dona do próprio negócio e fazia viagens frequentes, o que deixava sua vida muito movimentada. Ter um filho a faria abrir mão de tudo aquilo, porque a responsabilidade da maternidade que cai sobre a mulher é enorme, e Eva não estava preparada. Seu filho Kevin cresceu odioso e dissimulado, o que o levou a cometer uma chacina na escola e desenvolver um distúrbio de psicopatia.  A exemplo das manifestações recentes de mães em redes sociais, Eva sempre deixou claro: ela amava seu filho, mas odiava ser mãe, afinal, nem toda mulher precisa ser mãe.

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4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 Months, 3 Weeks, 2 Days, 2007)

A mulher que quer abortar

20 semanas ou 5 meses é o tempo limite para realização de um aborto. O filho de Gabita está há 4 meses, 3 semanas e 2 dias no útero, e a universitária optou por abortar a criança. Mas Gabita não está sozinha, sua amiga Otilia é quem monta toda a logística, alugando um quarto de hotel e contratando o feitor do serviço. Em nenhum momento o pai aparece. Em nenhum momento a família aparece. Se no Brasil a clandestinidade do aborto é chocante, imagine numa Romênia dos anos 80 sob regime ditatorial. A ilegalidade da prática abandona uma moça que simplesmente cometeu um erro e quer solucioná-lo o quanto antes. Certo ou não, o aborto existe, e mesmo sendo contra a lei, não vai parar. A mulher precisa de segurança, suporte e liberdade de escolha, a função do Estado Laico é justamente garanti-la seus direitos. Gabita não os teve e o filme mostra a pior resolução possível da situação. Vencedor da Palma de Ouro em 2007.

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Para Sempre Lilya (Lilya 4 Ever, 2002)

A mulher comercializada

Em seu primeiro filme, Lukas Moodysson mostrou a história de duas meninas que se apaixonam no Ensino Médio. Já em Para Sempre Lilya, seu terceiro filme, o cineasta traz a história de uma menina de 16 anos que vai perdendo se desapaixona pela vida.

Residente de um subúrbio da antiga União Soviética, Lilya mora sozinha, abandonada pela mãe. Ela tem como amigo o jovem Volodya, de 11 anos. No decorrer do filme, Lilya se apaixona por um rapaz que a leva à Suécia prometendo um futuro melhor. Lá, ela se vê mais abandonada que nunca e em meio a um esquema de prostituição. Volodya a encontra em seus sonhos antes da tragédia, e representa para Lilya a inocência de uma infância que ela nunca teve, em função da necessidade prematura por amadurecimento. O filme mostra como a falta da estrutura familiar gera a desestruturação de uma vida, além de representar o destrutivo machismo de uma sociedade que se aproveita da fragilidade da mulher, as fazendo de comércio.

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Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003)

A mulher solitária

Sofia Coppola é uma mulher instrínseca para o cinema, em função de seu olhar sensível e representativo quanto ao feminino. Em Encontros e Desencontros, Charlotte é uma mulher que têm seu copo cheio. O uísque que ela bebe no saguão do hotel traz consigo desde suas frustrações às grandes sabedorias acadêmicas, fruto de sua recém graduação em filosofia. Uma mulher que ao conhecer um homem igualmente solitário, experimenta o novo: tentar esvaziar o copo. Ela já era livre e já experimentava coisas novas, mas nunca com plenitude. Apesar de casada, ao se encontrar com um estranho pelo qual ela cria empatia, Charlotte se vê compreendida. Ela desiste de superar a solidão sozinha. Desiste de ser a super mulher que consegue brigar com a rotina e as convenções relacionamentais: ela opta pelo mais díficil, pelo mais intenso e pelo menos garantindo. Uma mulher à procura de um propósito, visando a felicidade plena e a superação da solidão. Vencedor de Melhor Roteiro Original no Oscar de 2004.

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Tangerine (Idem, 2015)

A mulher que quer ser mulher

Sin-Dee é uma prostituta transsexual que teve seu coração partido pelo cafetão que a traiu. Para fazer justiça com as próprias mãos, ela procura o homem que a magoou pelas ruas de Los Angeles no crepúsculo vespertino de uma véspera de Natal. Com sua amiga Alexandra, também prostituta e transsexual, representam juntas toda a marginalização sofrida pelas trans em situações humilhantes no âmbito da prostituição, roubo e tráfico de drogas, cenário recorrente nas principais metrópoles do mundo. Sin-Dee sonha em ser amada, enquanto Alexandra sonha em ser cantora. Um sonho em comum? Ser mulher. Mas ao mesmo tempo, ambas dividem seu tempo entre punhetas e trocados na Cidade dos Sonhos roubados.

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Que Horas Ela Volta? (Idem, 2015)

A mulher que não baixa a cabeça

Anna Muylaert conseguiu vários feitos para a mulher no cinema brasileiro: elevou Regina Casé, conhecida figura popular, a uma atriz premiada internacionalmente; pôs seu filme em horário nobre de rede nacional e com um alcance gigantesco; esteve na lista prévia de indicados ao Oscar e, sobretudo: fez um filme com mulheres fortes, autênticas e representativas, dentre elas, chama a atenção a personagem Jessica, que bate de frente com a patroa, tenta abrir os olhos da mãe e, ao fim, mostra a sua senhoria que é tão capaz quanto eles. Jessica passa no vestibular e o filho da patroa, não. Uma mulher símbolo da luta de tantas outras brasileiras, vivendo uma situação que é tão absurda quanto verdadeira. A cineasta deu ao cinema nacional uma obra prima, problematizadora e que levanta bandeiras pelas domésticas, pelo preconceito, e por último, mas não menos importante, pela força da mulher que estuda, que limpa chão e que constrói uma família mesmo na adversidade. Em outras palavras, o filme de Muylaert é também uma homenagem à força da mulher brasileira.

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Azul é a Cor Mais Quente (La Vie d’Adèle, 2013)

A mulher que quer amar outra mulher

Poucos romances conseguem chegar a sublimidade atingida por Azul é a Cor Mais Quente. Sob as interpretações sensíveis de Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux, a relação homessexual de Emma é Adèle deu ao cinema e ao espectador uma experiência muito mais singela e autêntica que um monte de romances héteros, ao mesmo tempo em que rompeu vários tabus, mostrando sexo quase que explícito entre as duas personagens. Talvez aí esteja o trunfo do filme: o explícito não agride nem choca, mas excita e emociona. Com um relacionamento intenso e irregular como pano de fundo, Azul é a Cor Mais Quente veio para representar as mulheres que se amam e, acima de tudo, humanizá-las. Ao som de “I Follow Rivers”, a gente se apaixona mais por esse rolo gay do que por noventa por cento dos romances “normais” que têm por aí. Vencedor da Palma de Ouro em 2013.

Esse texto é dedicado a minha mãe e minha vó. Sobretudo, dedicado à Millena; menina que com seu jeito mulher me ensina a virar homem.

A todas as mulheres que fizeram e fazem de mim o que sou, feliz Dia da Mulher.

Uma Carta ao Alê Abreu

Sobre voltar a ser criança e perceber o quão bom é ser infantil.

Cidade do México, 16 de janeiro de 2016. Duas horas depois de ter assistido ¨O Menino e o Mundo¨ na Cineteca Nacional.

Oi Alê,

Meu nome é Lucas França da Silva, tenho 18 anos, carioca e estou te escrevendo essa carta como um simples agradecimento.

Vi ¨O Menino e o Mundo¨ e posso te dizer que refleti e fiquei muito feliz. Cresci assistindo animações, aquelas mais tradicionais possíveis. Conforme fui crescendo, as deixei um pouco de lado. Passei a acreditar que elas fossem de um universo infantil. Para minha surpresa, eu estava certo, porém com a intenção errada. A jornada do Menino fez com que eu voltasse a olhar para minha criança interior e percebesse o quão grandiosa, corajosa e sincera ela pode ser. Obrigado.

Algo que me chamou atenção foi o momento de despedida do Pai com o Menino. Tornando esse momento o mais íntimo possível, era daquele jeito que eu fazia com meu próprio pai. Agarrava as pernas e acreditava que ele iria, mas com certeza estaria de volta logo, logo. Lembrei da minha infância, quando eu não entendia a língua dos adultos, dos meus pais, mas queria estar perto deles a todo custo. Agora que estou longe, na Cidade do México, esse momento só se intensificou. Obrigado.

Durante todo meu Ensino Médio, estudei Roteiro para Mídias Digitais, no Colégio Estadual José Leite Lopes e pude me aproximar da realidade cinematográfica. Sabendo da indicação de “O Menino e o Mundo” ao Oscar, quero te agradecer por fazer a rapaziada como eu, que é apaixonada por cinema, acreditar na sétima arte nacional. Não é pelo prêmio, longe disso, mas sim por fazer o Brasil crer.

Não retirando o tom de agradecimento e alegria, o único fator que levemente me entristece é o público alcançado com o filme. “O Menino e o Mundo” deveria ser distribuído amplamente, saindo de festivais e salas de cinema menos acessíveis. Do Oiapoque ao Chui, o Menino precisa passar por diversos mundos existentes no nosso país.

Falo de verdade verdadeira. Ganhando ou não o Oscar, passando no Rio, México, EUA, Europa ou nos lugares mais malucos do mundo, “O Menino e o Mundo” me fez sentir, sorrir, sonhar e acreditar. O cinema é isso. Obrigado por fazer cinema. Cinema brasileiro aos olhos de um criança, como diria Emicida.

Obrigado.

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Este texto é o segundo dos filmes brasileiros relacionados ao Oscar 2016. O primeiro é o “Uma Carta à Anna Muylaert”, do Victor Liporage e se encontra aqui.

Dias de Classe A

Aos que catam lixo e dizem “obrigado”.

Eu sou Lucas França, tenho 18 anos, moro em Piedade (perto da Igreja de São Jorge), Zona Norte carioca, e passei meu Natal no Sheraton Barra, hotel 5 estrelas, separado da praia por apenas dois sinais de pedestre. Graças ao bom Deus e as boas amizades que cultivamos na vida, eu, meus pais e uma outra família amiga, convidados por um amigo, tivemos a oportunidade de viver, por poucos dias, a realidade classe A do Rio de Janeiro. Confesso que vi muitas coisas estranhas.

Alternando entre cama e praia, eu me obrigava a observar certos acontecimentos ao meu redor. Poucos “bom dia” e “obrigado” eram ditos entre hóspedes e moradores, independentes de nacionalidade. No elevador, era entrar mudo e sair calado. Governantas, garçons e seguranças, sempre transitando pelo hotel, eram bastante receptivos. Gente da gente.

Sem me alongar muito, o que me instigou a escrever esse relato foi a foto abaixo.

12436122_898705383541217_632598333_nGarrafas de Chandon (avaliadas em cerca de 75 reais cada), latas de cerveja Heineken e água. Cadeiras do Sheraton, toalhas do Sheraton, barraca do Sheraton e, ao fundo, o próprio Sheraton.”

Contextualizando, este espaço na praia, localizado exatamente no meio das duas torres do hotel, é tomado por cadeiras e utensílios Sheraton, numa completa apropriação e privatização da areia, visando o conforto dos hóspedes. A foto acima é o lixo deixado por pessoas que se utilizaram da área especial. Garrafas de Chandon e cervejas importadas deixadas no ambiente que, em tese, deveria ser público.

Ao final do dia, alguns rapazes, de maioria preta, se reúnem e recolhem o lixo deixado pelo pessoal das cadeiras bonitas e toalhas confortáveis. Convenhamos, imagina se no dia seguinte o pessoal chega na areia de novo e encontra tudo sujo, com restos espalhados… Que tragédia seria.

Gilberto Freire, em 1933, ao publicar o livro “Casa Grande e Senzala”, marcou diversos fatores de exclusão social, econômica e racial que construíram a sociedade brasileira. Os hóspedes do Sheraton, em 2015, marcam diversos fatores de exclusão social, econômica e racial que, infelizmente, ainda fazem parte da sociedade brasileira.

Ademais, algumas informações um tanto quanto notórias:

– Terral, restaurante do hotel, com vista para o mar, tem seu preço estipulado de 69 reais até 85 por pessoa, dependendo do dia e o que se vai comer.

– A diária do hotel varia entre 880 e 2000 reais.

– O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da Barra da Tijuca, bairro no qual o Sheraton está estabelecido, é igual a 0.959, tido como “de alto desenvolvimento”.

– Dar bom dia e recolher lixo de Chandon e Heineken, é de graça e ainda ajuda a limpar a praia.

Este relato não é algum tipo de repúdio ou degradação da imagem do hotel, pelo contrário, é um incentivo ao Sheraton para que eduque seus hóspedes e moradores. Um estímulo à boa vivência. Trabalhar a empatia é uma virtude 5 estrelas.

Uma carta à Anna Muylaert

Sobre “Que Horas Ela Volta?” e a previsibilidade da Academia.

Seu filme é o filme brasileiro mais popular dos últimos anos! Lembro bem, liguei a TV de manhã e ouvi, “Camila Márdila e Regina Casé dividem o prêmio de Melhor Atriz Internacional em Sundace”. Na hora, só pensei, “Regina tá ficando famosa internacionalmente? Tenho que conferir esse filme”.

Desde então, foi só sucesso. Várias indicações internacionais e, inclusive, alguns prêmios. Mas acima de tudo, Anna, seu filme incomodou. Fabinho, um sinhôzinho em sua Casa Grande; Dona Bárbara, a patroa e esposa do Barão; e o Barão – sendo Barão – se apaixonando pela filha da empregada.

Se a sua intenção era fazer uma obra cheia de simbolismos e que apertasse a ferida da classe média alta brasileira, acertou em cheio. O mais bonito é que sua equipe de distribuição não se restringiu aos cinemas desta mesma classe média alta, mas ampliou-se aos cinemas populares. E foi a um desses cinema que levei a minha vó.

“Quer ver aquele filme novo da Regina Casé, vó?”

“Você vai me levar pro cinema?”

“Vamos juntos ao cinema, sim, vó.”

“Eu vou! Mas só não passa lá na Zona Sul?”

“Tá passando no cinema do shopping.”

“Me leva!”

Meu primeiro obrigado é esse. Obrigado por terem batido na porta das grandes redes de cinema e negociado com eles a distribuição ampla do filme, caso contrário, eu não teria levado a minha vó. Foram nesses mesmos cinemas populares onde as domésticas puderam ver; se identificar; trazer suas famílias e chorar junto com a Val no momento em que ela entra na piscina. Sabe o que eu acho? “Que horas ela volta?” é uma grande metáfora para a “entrada na piscina”. Entrou em várias piscinas, só não conseguiu entrar no ofurô da Academia.

Imagina a Regina Casé recebendo o Oscar das mãos de Octavia Spencer; que momento! Imagina o seu discurso, Anna, tão ácido quanto seu filme… Foi quase. Para a tristeza do cinema brasileiro, nada disso irá acontecer.

Olha, considero a Academia uma praia particular que a cada ano envia seus convites limitadíssimos aos seus “bons frequentadores”. Tudo bem que o Oscar vem perdendo credibilidade ano a ano, mas sua cerimônia ainda é o maior momento do cinema internacional. Tenho certeza que assisti-la em casa, ano após ano, mexe com seu coração tanto quanto mexe com o meu, de futuro aspirante a cineasta. Mas vai saber, talvez seja tudo uma grande propaganda dessa “praia particular”. Alguns convites caridosos são distribuídos a cada ano, mas no fim, quem têm lugar garantido são as pessoas ilustres e requintadas. No ofurô da Academia, não apenas cabe pouca gente, como quem tá dentro, não sai.

Além do mais, como toda boa festa, às vezes alguém bebe demais e fala algumas “besteiras”. Lembra no ano passado, a Patricia Arquette? É exatamente assim que eu imagino seu discurso: lindas palavras contra o machismo na indústria cinematográfica. Ela foi ovacionada e a produção ouviu calada. Indireta recebida.

Um ano depois, você foi a primeira cineasta brasileira em 30 anos a figurar alguma concorrência no Oscar, mas seu filme não está na lista dos nove pré indicados ao Melhor Filme Estrangeiro, e essa mesma lista tem nove homens… 

É, parece que Arquette estava certa.

Ainda por cima, o cinema europeu domina a lista. Apenas um representante da Ásia e um representante da América Latina fazem parecer que há uma “cota” na Academia. Como se não bastasse, os temas também se repetem. Dos 9 finalistas, seis filmes têm guerra como tema e quatro deles falam sobre o nazismo de alguma forma.

Eu sei que você entende, Anna, mas sempre é bom ressaltar: o objetivo não é fazer juízo de valor do que é bom ou ruim, dizer se você foi injustiçada ou não; mas sim atentar à previsibilidade da cerimônia mais grandiosa do cinema. São várias as temáticas subaproveitadas que poderiam vir à tona num evento de cunho político e social tão grande. Infelizmente, a premiação vem sofrendo uma segmetanção ideológica clara nos últimos anos – repare nos últimos premiados, boa parte deles são uma exaltação ao americanismo.

Vê se você concorda comigo:

Talvez a Academia precisa parar de remoer o Nazismo e se atentar ao terrorismo – mas isso não significa premiar filmes que exaltem as tropas americanas, e sim os que atentam ao sofrimento das mães iraquianas -. As atuações esplendorosas de Leonardo DiCaprio nunca serão recompensadas enquanto forem sobre um antiherói viciado em drogas e bebidas, e o cinema nacional só ganhará um Oscar quando começar a fazer filmes sob medida.

 

Obrigado, Anna, por manter fiel em nosso cinema as brasilidades.

Obrigado, Anna, por não fazer filme sob medida.

Com toda a admiração do mundo,

Victor Hugo Liporage

 

E se Jesus…?

Dedicado à minha mãe, que não parou de perguntar até agora “cadê aquele texto bem legal sobre Jesus?”. 

Sim, eu sou evangélico e frequento uma simpática igreja no Méier, bairro da Zona Norte carioca. Não, eu não quero seu dízimo nem vou te discriminar.

Certo dia eu estava na escola dominical (uma “aula” sobre a Bíblia e suas passagens). O assunto que estava em pauta era a representatividade de Jesus para o povo Judeu. Conversa vai e história vem, o seguinte diálogo começou:

– Pessoal, os judeus não viam Jesus como messias, salvador. Ele era mais um “profeta”, um cara diferente.

– É verdade tia, eu bem lembro daquela história de Jesus entrando na cidade de burrinho. Isso é mais um motivo, né? Eles idealizavam um salvador grandioso, com a aparência poderosa. Imagina um Jesus Boladão!

A partir disso, as pessoas começaram a elucubrar sobre uma outra realidade de Jesus, diferente da verdade humilde e pobre que Ele viveu. Falaram em “MC Jesus”, andando pela Galiléia de cordão de ouro e sandália importada. Jesus Maromba, envolvido na academia, forte e musculoso. Até em rapper gangster eu ouvi Ele sendo posto.

Pensem comigo. “Atenção rapaziada do baile, chegou a hora do DJ mais esperado da noite. Com vocês, Nazarenoooooo!”. E a Jesus sobe no palco e diz: “Salvem-me, a paz de meu pai!”. Tá, é bizarro, desculpa por isso. Eu gosto muito Desse cara que me permito criar essas coisas.

Mediante essas novas faces de Jesus, fiquei imaginando na real figura humana que Ele deveria ter. Afinal, Ele foi homem de carne e osso, até chorou. Dois pontos principais e que irão guiar esse texto surgiram na minha mente: o local onde Ele nasceu e o que pregava.

Jesus nasceu em Belém, uma cidade da Cisjordânia, dez quilômetros ao sul de Jerusalém. Sendo assim, pode-se ressaltar que nosso amigo não era um perfil europeu-loiro-claro-branquelo. Coloquem um árabe na frente de vocês. Sem cabelo liso, altura mediana e um tom de pele pardo. Colocaram? Então, Jesus deveria ser bem parecido.

Vamos ao segundo ponto. Jesus era um cara humildão, trocava ideia com todo mundo, até andou com uma rapaziada meio “underground” pra pregar o amor. A morte dele na cruz foi por amor, sem ver a quem. Amou todo mundo acima de tudo. Ouvia a criançada, contava história e dizia pra dividirmos as coisas.

Aí os caras hoje querem pregar sobre prosperidade exacerbada, inventam campanhas milagreiras e, o pior de tudo, brincam com sentimento e realidade dos mais necessitados, prometendo vitória atrás de vitória. Deturparam Jesus. Transformaram-no num caucasiano cabeça em pé que só olho pros “seus”.

Enfim, eu gosto do meu Jesus “vida real”. Rapper, gangster, maromba, sei lá. Imaginem como quiser, só não digam o contrário do que Ele falou. Não apaguem a mensagem de um cara que é puro amor.

Beijos e fiquem com Jesus.

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Vítima da estrutura

por Victor Hugo Liporage

Aos meus professores, que sejam eternamente educadores e não treinadores.

Aprendi no Enem que nosso próposito não é aprender, e que os dias 24 e 25 de outubro são uma grande peneira nacional.

Não me entenda mal, esse texto não serve apenas pra malhar o exame; longe disso. Posso dizer que as questões as quais fiz com mais segurança foram de conhecimentos gerais, graças a minha curiosidade irrefreável que me faz ler notícias. E no quesito “conhecimentos gerais” o Enem vai bem. Quer dizer, mais ou menos.

Começo escrevendo minha dissertação com um parágrafo de uma linha, seguido por outro parágrafo que já parte pro que seria o “desenvolvimento”, e logo em seguida converso contigo, leitor, explicando minha metodologia de escrita. Assim, do nada. Não é que eu não concorde com a estrutura preestabelecida de uma redação, mas minha irregularidade serve como exemplo pro meu ponto de vista: somos vítimas da estrutura e o Exame Nacional do Ensino Médio é uma espécie de seleção natural regulada.

Nossa única oportunidade pra estimular o senso crítico é na redação, e o que define nosso ingresso numa faculdade de ponta é interpretação de texto e quantas fórmulas conseguimos gravar. Volto a citar o item “conhecimentos gerais”, algo tão priorizado pelo exame, mas que na maior parte das vezes fica refém de questões com grau de especificidade altíssimo, servindo apenas pra ajudar a mascarar sua importância.

A definição de Seleção Natural é assustadoramente condizente com o que é o Exame Nacional de Ensino Médio. Julgue-me sofista, mas ouso dizer: somos bichos batalhando por um lugar em nosso habitat natural.

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Nos tornamos selvagens e pulamos grades em busca da “comida”, mobilizamos holofotes na tragédia e somos reféns dos mais fortes.

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Entenda bem, há mais fortes, e não mais capazes. Na teoria, somos todos capazes. Se o estudante de colégio privado tem toda uma estrutura que o ajuda é se sair melhor na hora da prova, isso acontece porque ele tem que ser diferenciado, afinal, há cotas raciais para alunos do sistema público de ensino. As cotas são justas? Esse não é o ponto. Mas se existem, a balança pende pra certo lado. A partir do momento que uma “ajuda” é necessária dentro de uma competição, vemos que essa competição não é sadia. E afinal, existe alguma competição sadia?

Nunca fiz pedagogia, muito menos dei aula. Tenho 17 anos e até hoje só fiz uma vez o Enem; quem sou eu pra julgar com unhas e dentes a metologia da prova? Mas falo como um ser humano que, de certa forma, tem experiência. Faço parte do sistema de educação há 15 anos, já não sou mais criança. Nem eu, nem nenhum dos Victor que estavam na minha sala. Nem eu, nem nenhum dos adolescentes que se reuniram por, no mínimo, duas horas pra prestar o concurso Brasil a fora.

Mas beleza, vou tentar. Confesso que tive prazer em fazer as questões de Ciências Humanas – não querendo ser clubista e puxar sardinha pra minha área, já o sendo – mas havia Paulo Freire (este criticando o próprio modelo educacional vigente), ao lado de Simone de Beauvoir e parágrafo formidável de Slavoj Žižek. O que falar de Ciências da Natureza? Infelizmente, minha mãe não pôde me pagar um cursinho. Mas sou grato aos meus professores que tentaram me ensinar da maneira mais didática possível.

Nós, adolescentes, temos muitas boas conversas pra trocar, não precisamos sentar em carteiras separadas. A gente tem muitos bons textos a escrever, não precisamos assinalar qual letra é a mais correta. Não somos terroristas pra ter quer passar por um detector de metais, mas vivemos numa selva onde a concorrência nos leva a querer dar um jeitinho e romper com nossa ética. Mas onde está a ética que o Enem quer que eu saiba definir? Qual é a moral da história?

Está bem, na vida não só faremos coisas das quais gostamos ou são as mais corretas. Se o Brasil é um “país de todos”, que a educação seja pra todos. Um povo com senso crítico leva o país pra frente. Meus professores já me ensinaram isso, mas essa pergunta não caiu no Enem. Não existe meritocracia quando a concorrência é desleal e o avaliador é falho. Cabe muito mais coisa nesse texto, porém fui condicionado a escrever em apenas 30 linhas, sou mais uma vítima da estrutura.