Eu, Jonas e o Bom Ar

por Lucas França

“Corre! Lucas, eu já falei pra você ir se arrumar logo…”, disse minha mãe ao me ver deitado no sofá e supostamente atrasado para igreja. Obediente, levantei e fui até o quarto. Peguei a primeira camisa que vi, alcancei a calça e fui para o banheiro. Veste daqui, se ajeita de lá, levei minha mão até o desodorante. No entanto, o mundo parou e, bem ao lado do tubo de aerosol, percebi a presença do Bom Ar com cheiro de “Campo pela manhã”. Foi aí que eu pensei…

Jonas, desde criança, sofreu bullying por conta do tamanho de seu nariz. Quebrou o cd da Xuxa que dizia “ai meu nariz, parece até um chafariz” e jogou fora seu VHS de “Pinóquio”. Trauma atrás de trauma, ele foi, da sua maneira, enfrentando a vida e falando para si mesmo que tudo iria passar, um dia ele venceria. Era isso que ecoava em sua mente.

Na adolescência, mais problemas. Jonas não tinha muitos amigos, ficava sempre quieto em seu canto, tentando evitar o inevitável: ser feito de piada. Era só chegar perto de uma menina que o grito de “não vai roubar o ar” podia ser escutado por toda escola. Em seu aniversário de 18 anos, uma espinha surgiu na ponta do nariz. Imagine a dor, nem os pais tiraram Jonas do banheiro. Novamente, sentado no chão frio e chorando, a promessa de vitória foi feita.

Já adulto, Jonas começou a trabalhar como estoquista numa fábrica de produtos aerosol. Não parava de empacotar, carimbar e fazer relatórios de distribuição. Cansativo, porém honesto. Certo dia, comum e atarefado, o chefe de Jonas entrou no estoque falando para ninguém e gritando para todos: “O consultor de cheiros não quer mais trabalhar, diz ele que foi para a Boticário! Alguém me ajuda!”. Num encontro de olhares, ocorreu o amor a primeira vista.

Jonas sorriu para seu chefe, que o chamou para uma conversa em sua sala. No ato, já havia promovido o menino para o cargo de Consultor de Cheiros oficial da empresa. A dia da vitória havia enfim chegado. Jonas chegou em casa e contou a notícia para seus pais. Estranhando um pouco, mas percebendo a felicidade do filho, não demoraram a abraçá-lo e desejar-lhe o maior “parabéns” possível.

O menino, um dia tímido e retraído, hoje era referência no que fazia. Dava palestras, era o homem da empresa. Fazia cursos de aperfeiçoamento para conseguir identificar diversos cheiros. Numa de suas palestras, se apaixonou e por Rita, uma menina nova e de nariz parecido. Havia encontrado sua alma gêmea. Casaram, tiveram filhos. Por obra divina, nenhum dos dois narigudo, mas ambos com seis dedos no pé esquerdo. Faz parte.

Certa vez, numa viagem de férias, Jonas e sua família foram para os campos sulinos do Brasil. No último dia de viagem, o chefe da família acordou cedo e foi se sentar no chão,  no mato, para sentir os últimos momentos de contato com a terra. Sentou e respirou fundo. Seu mundo parou e num grito, infartou: “É isso, cheiro de Campo pela manhã!”. Trágico, morreu ali, com o eco de sua voz correndo até a casa de sua família.

Jonas ficou eternizado nas memórias da empresa e o cheiro que descobriu, vive pra sempre nos nossos lares, refrescando-nos quando não temos mais esperanças de odores melhores. Enquanto isso, eu terminei de me arrumar. Minha mãe brigou comigo pelo atraso. Mandei ela ir cheirar Bom de Ar de “campos pela manhã”. Que Jonas me ajude.

Um passeio com a minha avó e concepções das imagens divinas

por Victor Hugo Liporage, à minha vó, que me criou pra ser um leite com pêra consciente.

Visitei o Centro do Rio com minha vó essa semana. Nós estávamos mais especificamente nos arredores do Tribunal de Justiça do Estado, esperando o ônibus para voltar pra casa. A senhora minha vó, Sueli, no auge dos seus setenta, estava bem animada por passear com seu netinho numa manhã de sábado. Ela me convidou a visitar a Igreja de São José, e foi aí que tudo começou.

Me disse que atrás da capela da Igreja tem um “segredo”. Eu perguntei que tipo de segredo e ela respondeu que se me contasse, eu não ia querer mais visitar. Resolvi conhecer a igreja, mas estava fechada. Tadinha da velhinha, ficou frustrada. “Logo no sábado?”, e ainda acrescentou, “acho que agora eles só abrem em dia de casamento, porque ultimamente só tem ido gente de dinheiro casar por lá”.

Minha vó é uma exímia senhora de setenta. Ama a família, é tradicional (um tanto ignorante em certos aspectos, mas é de se entender, cresceu nos anos cinquenta) e de uma inocência que só ela. A Sueli estava tão animada que me convidou pra ir na Praça XV. Eu disse que não. Ela ainda insistiu mais um pouco, mas minha preguiça falou mais alto. Pegamos nosso ônibus e viemos a caminho de casa.

Ainda assim, ela não queria contar o tal segredo da Igreja de São José. Mas argumentei de maneira tão formidável quanto um advogado do STF ao dizer, “Pô, vó. Se você não me contar, eu procuro na internet”. Aí ela não resistiu e desembuchou de vez.

“Atrás da capela, tem uma imagem do Nosso Senhor e é igualzinha a ele! Chego a arrepiar”…

Então era esse o segredo, atrás da capela uma imagem fidedigna de Jesus. Foi nessa hora que perguntei, “como você sabe que era uma imagem fiel de Jesus, vó?”, “ah, pelo que eu vejo nas livros e nas fotos, né”. E aí ainda indaguei mais uma vez, “por isso? Mas e se Jesus fosse careca?”. Minha vó completou “não, ele nunca foi careca”.

Sueli cresceu numa família católica e conservadora, nos subúrbios da cidade do Rio. Ela nunca foi a outro país. Quanto a outros estados, só uma vez, justamente para acompanhar uma missa do Pe. Marcelo Rossi em Aparecida do Norte. Ela é muito fiel a sua religião e pouco aberta a outros segmentos religiosos, mas não é a única. A maioria massiva da sociedade brasileira tem essa característica, principalmente os que nasceram antes de 1950. Minha vó passa por uma oferenda de umbanda na rua e pede licença; vê alguém de véu no Jornal Nacional e chama de terrorista. Ela é xenofóbica? De maneira nenhuma, é apenas muito inocente e pouco conhece do mundo.

Tudo bem, quem sou eu pra falar de “conhecer do mundo”, não completei nem a maioridade. Contudo, vivo numa época em que os costumes são outros – nossa sociedade evoluiu. Aceitamos mais os gêneros em minoria, a liberdade de expressão é levada à sério e não há um deslocamento tão grande entre as crenças religiosas. Estamos em contato dia a dia com diferentes tipos de fé, o que ajuda demais na quebra do preconceito. Os católicos mais jovens estão cada vez mais cristãos e ecumênicos. Paradigmas e estereótipos são quebrados na televisão, nos filmes e na vivência do cotidiano. Não cabe mais pensar fechado como a criação que minha vó teve a fez pensar.

religiao

Jesus não precisa ser branco, não precisa ser alto e não precisa ter a complexão de um galã de novela. Jesus não precisa ter cabelo. Nem Jesus, nem Alá, Tupã, Olorum, Brama ou Shiva… Nós não somos a imagem e semelhança de todas essas divindades. Eles é quem são a nossa.  Não devemos criar uma imagem de nossas crenças divinas, e sim, sobretudo, fazer delas um símbolo de fé.

“E se a maconha for da boa, que se foda a ideologia”?

por Victor Hugo Liporage, ao Criolo e sua rapaziada, que não se limitam a mudar o mundo do sofá de casa.

Criolo visitou o Rio em maio e marquei presença. O cantor esbanjou músicas com ideologias pesadas, embasadas e de grande coerência com o cotidiano. Em alguns dos seus versos, Criolo canta bem alto:

“Mudar o mundo do sofá da casa, postar no insta

E se a maconha for da boa, que se foda a ideologia”

Esses versos específicos chamam sempre o público pra cantar junto no show do músico. A casa se envolve e podemos ouvi-los em alto e bom som, partindo de todos. Dá a entender que as pessoas se identificam com a mensagem, né?

“Convoque Seu Buda” Criolo

Pois então.

Me veio a cabeça um discurso arrepiante antes do show. A equipe do Circo Voador, a casa de show em questão, veio anunciar alguns parceiros que estavam na área, dentre eles, uma rapaziada de um movimento contra a redução da maioridade penal. Grande parte da galera presente no evento pegou adesivos e tirou fotos estampando o símbolo do grupo.

Durante o show, essas mesmas pessoas estavam reunidas por lá. Alguns com cigarro, muitos bebendo e outros com um beque de maconha. Criolo entrou, chamou todos a convocarem seu Buda e gritou bem alto o verso “e se a maconha for da boa, que se foda a ideologia”.

Com a redução da maioridade penal, jovens de dezesseis anos já podem ir pra cadeia convencional e recebem pena convencional. Quais são seus crimes? Furtos, posse e, principalmente, tráfico de drogas. Esses meninos que vão a cadeia são viciados ou simplesmente frustrados. Eles querem a todo custo se sentir parte e não tem culpa da marginalização pela qual estão frequentemente submetidos. Quem os financia são seus superiores, que os fazem ter que roubar para pagar pela droga que consomem, ou vender outros tipos de drogas para fazerem dinheiro. Dentre essas drogas, a maconha.

A maconha é uma droga? Sim. Assim como o álcool e a bebida também são, mas esses estão legalizados. A questão não é se a maconha faz mal ou não – ao meu ver, muito menos que a nicotina e o álcool – e sim o fato dela, por lei, não poder ser comercializada. O tráfico controla seu comércio. Seus soldados são homens feitos, mas muitos deles também são menores. Quem financia o tráfico? O indivíduo que compra a droga.

Esse indivíduo a consome na praia, em casa ou na casa de show. Ele canta o verso que contradiz todas suas práticas e cola adesivo em campanha contra a redução da maioridade penal. Mal sabe ele que, indiretamente, está contribuindo dia a dia para o direcionamento de mais e mais jovens ao crime.

Entendam: a crítica não é ao consumo da cannabis sativa ou a todas pessoas que estavam naquele show e cantaram juntas aquele verso no início do texto. O problema está no financiamento ao tráfico e o quanto as pessoas podem contradizer suas virtudes. Na real, todo mundo sabe que é errado comprar maconha na boca de fumo. Mas muita gente gosta de consumir de maconha e o único meio de adquiri-la é esse. Todo mundo sabe que tem menor de idade por ali. Todo mundo sabe que esse negócio pode dar cadeia, para ambas as partes, inclusive. Mas parece que o pensamento é de que se a maconha for da boa, que se foda a ideologia.

Mudar o mundo do sofá da casa, repetindo a esmo os versos de Criolo e indo contra seu pensamento sem nem notar, só vai nos fazer retroceder. Se o movimento é pela descriminalização da maconha, vamos protestar, apresentar bons argumentos e compartilhar a ideia. Agora, se queremos reivindicar a presença de menores de dezesseis na cadeia, façamos isso de consciência limpa. Se a gente quer ouvir um bom som e se identificar com a moral passada, vamos fazer jus a moral.

“Ou colocamos nossas crianças na escola em tempo integral, com qualidade de ensino, de alimentação, esportes, tratamento dentário e de saúde, ou daqui há 20 anos estaremos trancados em casa, com medo de criança” Darcy Ribeiro

Mulher ingrata

por Lucas França

Então, sem mais nem menos, você conhece aquela menina que todos dizem ser a “mais importante” de todas. Receoso e observador, você tenta entendê-la.
Ela veio pra somar. Subtrai seus medos, divide de tudo com você e multiplica suas horas de alegria. A probabilidade de você se apaixonar por ela é exata: 100%.

O tempo passa e o sentimento aumenta. É um conjunto real e inteiro de amor. Sequências de bons momentos, um produto mais do que notável de carinho e compreensão.

Mas o tempo, sempre ele… Infinito e ininterrupto, criou distâncias, abriu espaços nos planos e nas retas traçadas. Passou a problematizar tudo.

A relação começa a mudar. “Mediana”, você responde quando perguntam como estão. Horas fracionadas sem ver um ao outro. Dá até pra contar no dedo as vezes que se falam.

Não quer mais saber de você, vive em função do que quer e não dá ouvidos as suas dúvidas e questionamentos. Os graus de distância aumentam em função de seu querer. 1º. 2º.

Sai todos os dias com sua melhor amiga, uma tal de Bhaskara. Não só por ela, mas por outros você foi trocado. Primos, amigos imaginários. Uma lista, inúmeros. Cruel.

Qual era o tamanho desse amor? É notável que tudo desmoronou. Eu posso calcular a dor que você sente. Sou a prova viva e afirmo: você nunca esquecerá dela.