Um passeio com a minha avó e concepções das imagens divinas

por Victor Hugo Liporage, à minha vó, que me criou pra ser um leite com pêra consciente.

Visitei o Centro do Rio com minha vó essa semana. Nós estávamos mais especificamente nos arredores do Tribunal de Justiça do Estado, esperando o ônibus para voltar pra casa. A senhora minha vó, Sueli, no auge dos seus setenta, estava bem animada por passear com seu netinho numa manhã de sábado. Ela me convidou a visitar a Igreja de São José, e foi aí que tudo começou.

Me disse que atrás da capela da Igreja tem um “segredo”. Eu perguntei que tipo de segredo e ela respondeu que se me contasse, eu não ia querer mais visitar. Resolvi conhecer a igreja, mas estava fechada. Tadinha da velhinha, ficou frustrada. “Logo no sábado?”, e ainda acrescentou, “acho que agora eles só abrem em dia de casamento, porque ultimamente só tem ido gente de dinheiro casar por lá”.

Minha vó é uma exímia senhora de setenta. Ama a família, é tradicional (um tanto ignorante em certos aspectos, mas é de se entender, cresceu nos anos cinquenta) e de uma inocência que só ela. A Sueli estava tão animada que me convidou pra ir na Praça XV. Eu disse que não. Ela ainda insistiu mais um pouco, mas minha preguiça falou mais alto. Pegamos nosso ônibus e viemos a caminho de casa.

Ainda assim, ela não queria contar o tal segredo da Igreja de São José. Mas argumentei de maneira tão formidável quanto um advogado do STF ao dizer, “Pô, vó. Se você não me contar, eu procuro na internet”. Aí ela não resistiu e desembuchou de vez.

“Atrás da capela, tem uma imagem do Nosso Senhor e é igualzinha a ele! Chego a arrepiar”…

Então era esse o segredo, atrás da capela uma imagem fidedigna de Jesus. Foi nessa hora que perguntei, “como você sabe que era uma imagem fiel de Jesus, vó?”, “ah, pelo que eu vejo nas livros e nas fotos, né”. E aí ainda indaguei mais uma vez, “por isso? Mas e se Jesus fosse careca?”. Minha vó completou “não, ele nunca foi careca”.

Sueli cresceu numa família católica e conservadora, nos subúrbios da cidade do Rio. Ela nunca foi a outro país. Quanto a outros estados, só uma vez, justamente para acompanhar uma missa do Pe. Marcelo Rossi em Aparecida do Norte. Ela é muito fiel a sua religião e pouco aberta a outros segmentos religiosos, mas não é a única. A maioria massiva da sociedade brasileira tem essa característica, principalmente os que nasceram antes de 1950. Minha vó passa por uma oferenda de umbanda na rua e pede licença; vê alguém de véu no Jornal Nacional e chama de terrorista. Ela é xenofóbica? De maneira nenhuma, é apenas muito inocente e pouco conhece do mundo.

Tudo bem, quem sou eu pra falar de “conhecer do mundo”, não completei nem a maioridade. Contudo, vivo numa época em que os costumes são outros – nossa sociedade evoluiu. Aceitamos mais os gêneros em minoria, a liberdade de expressão é levada à sério e não há um deslocamento tão grande entre as crenças religiosas. Estamos em contato dia a dia com diferentes tipos de fé, o que ajuda demais na quebra do preconceito. Os católicos mais jovens estão cada vez mais cristãos e ecumênicos. Paradigmas e estereótipos são quebrados na televisão, nos filmes e na vivência do cotidiano. Não cabe mais pensar fechado como a criação que minha vó teve a fez pensar.

religiao

Jesus não precisa ser branco, não precisa ser alto e não precisa ter a complexão de um galã de novela. Jesus não precisa ter cabelo. Nem Jesus, nem Alá, Tupã, Olorum, Brama ou Shiva… Nós não somos a imagem e semelhança de todas essas divindades. Eles é quem são a nossa.  Não devemos criar uma imagem de nossas crenças divinas, e sim, sobretudo, fazer delas um símbolo de fé.

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Um comentário sobre “Um passeio com a minha avó e concepções das imagens divinas

  1. As imagens de Divindades são uma representação humana da necessidade de conhecer onde depositam sua fé. por isso essa grande necessidade de saber como é a expressão de sua Divindade.

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