Vítima da estrutura

por Victor Hugo Liporage

Aos meus professores, que sejam eternamente educadores e não treinadores.

Aprendi no Enem que nosso próposito não é aprender, e que os dias 24 e 25 de outubro são uma grande peneira nacional.

Não me entenda mal, esse texto não serve apenas pra malhar o exame; longe disso. Posso dizer que as questões as quais fiz com mais segurança foram de conhecimentos gerais, graças a minha curiosidade irrefreável que me faz ler notícias. E no quesito “conhecimentos gerais” o Enem vai bem. Quer dizer, mais ou menos.

Começo escrevendo minha dissertação com um parágrafo de uma linha, seguido por outro parágrafo que já parte pro que seria o “desenvolvimento”, e logo em seguida converso contigo, leitor, explicando minha metodologia de escrita. Assim, do nada. Não é que eu não concorde com a estrutura preestabelecida de uma redação, mas minha irregularidade serve como exemplo pro meu ponto de vista: somos vítimas da estrutura e o Exame Nacional do Ensino Médio é uma espécie de seleção natural regulada.

Nossa única oportunidade pra estimular o senso crítico é na redação, e o que define nosso ingresso numa faculdade de ponta é interpretação de texto e quantas fórmulas conseguimos gravar. Volto a citar o item “conhecimentos gerais”, algo tão priorizado pelo exame, mas que na maior parte das vezes fica refém de questões com grau de especificidade altíssimo, servindo apenas pra ajudar a mascarar sua importância.

A definição de Seleção Natural é assustadoramente condizente com o que é o Exame Nacional de Ensino Médio. Julgue-me sofista, mas ouso dizer: somos bichos batalhando por um lugar em nosso habitat natural.

texto enem

Nos tornamos selvagens e pulamos grades em busca da “comida”, mobilizamos holofotes na tragédia e somos reféns dos mais fortes.

enem_2015_candidato_tenta_pular_portao

Entenda bem, há mais fortes, e não mais capazes. Na teoria, somos todos capazes. Se o estudante de colégio privado tem toda uma estrutura que o ajuda é se sair melhor na hora da prova, isso acontece porque ele tem que ser diferenciado, afinal, há cotas raciais para alunos do sistema público de ensino. As cotas são justas? Esse não é o ponto. Mas se existem, a balança pende pra certo lado. A partir do momento que uma “ajuda” é necessária dentro de uma competição, vemos que essa competição não é sadia. E afinal, existe alguma competição sadia?

Nunca fiz pedagogia, muito menos dei aula. Tenho 17 anos e até hoje só fiz uma vez o Enem; quem sou eu pra julgar com unhas e dentes a metologia da prova? Mas falo como um ser humano que, de certa forma, tem experiência. Faço parte do sistema de educação há 15 anos, já não sou mais criança. Nem eu, nem nenhum dos Victor que estavam na minha sala. Nem eu, nem nenhum dos adolescentes que se reuniram por, no mínimo, duas horas pra prestar o concurso Brasil a fora.

Mas beleza, vou tentar. Confesso que tive prazer em fazer as questões de Ciências Humanas – não querendo ser clubista e puxar sardinha pra minha área, já o sendo – mas havia Paulo Freire (este criticando o próprio modelo educacional vigente), ao lado de Simone de Beauvoir e parágrafo formidável de Slavoj Žižek. O que falar de Ciências da Natureza? Infelizmente, minha mãe não pôde me pagar um cursinho. Mas sou grato aos meus professores que tentaram me ensinar da maneira mais didática possível.

Nós, adolescentes, temos muitas boas conversas pra trocar, não precisamos sentar em carteiras separadas. A gente tem muitos bons textos a escrever, não precisamos assinalar qual letra é a mais correta. Não somos terroristas pra ter quer passar por um detector de metais, mas vivemos numa selva onde a concorrência nos leva a querer dar um jeitinho e romper com nossa ética. Mas onde está a ética que o Enem quer que eu saiba definir? Qual é a moral da história?

Está bem, na vida não só faremos coisas das quais gostamos ou são as mais corretas. Se o Brasil é um “país de todos”, que a educação seja pra todos. Um povo com senso crítico leva o país pra frente. Meus professores já me ensinaram isso, mas essa pergunta não caiu no Enem. Não existe meritocracia quando a concorrência é desleal e o avaliador é falho. Cabe muito mais coisa nesse texto, porém fui condicionado a escrever em apenas 30 linhas, sou mais uma vítima da estrutura.

Anúncios

Mamihlapinatapai

Por Victor Hugo Liporage, aos nativos da Terra do Fogo, que conseguiram passar ao mundo suas virtudes da maneira mais humilde possível.

Assisti recentemente A Vida em Um Dia (2011). O filme é uma proposta dos produtores em parceria com o YouTube, na qual os participantes deveriam enviar vídeos contando sobre um dia da sua vida. Nos vídeos, três perguntas deveriam ser respondidas: “o que há no seu bolso?”; “o que você teme?” e “o que você ama?”. As respostas foram momentos de pura autenticidade e comoção.

Um homem cuida de sua mulher que está se recuperando de um câncer, e a pergunta o que ela ama. A esposa, por sua vez, pergunta ao marido o que ele teme. Ele responde: “não temo mais nada”, e completa “acho que meu maior medo era que você tivesse câncer, e você o teve. Depois meu medo era que o câncer voltasse, e voltou. Agora está tudo resolvido, não temo mais nada”. No outro lado do mundo, um rapaz comenta o quanto ama sua geladeira. Uma forma diferente de amor, mas não menos significante.

Em um dos relatos, uma australiana diz o que ama. Diferente da maioria, ela está sozinha numa floresta, com a câmera na mão. Ela diz que ama a palavra mamihlapinatapai, expressão dos extintos nativos da Terra do Fogo, arquipélogo sulamericano. Em suas palavras, ela define mamihlapinatapai como “uma troca de olhares entre duas pessoas, cada qual querendo que a outra tome iniciativa em algo que ambas desejam, mas nenhuma tem a atitude.”

Mamihlapinatapai foi considerada em 2009 pelo Guiness como “a palavra mais sucinta do mundo”, em razão de seu amplo significado, além da sua invejável unidade, não havendo sinônimo próximo que traduza definição parecida.

mamihlapinatapai

A paixão na qual a australiana exemplifica a palavra que ama pode ser posta a altura do significado dessa palavra para as relações interpessoais em nossa sociedade.

Nos moldes atuais, onde essas relações são motivadas por segundos interesses, vaidade e superficialidade, mamihlapinatapai aparece como uma definição para o nosso tempo. Como por exemplo, uma conferência da ONU. Sabemos que Palestina e Israel querem paz para o seu povo, mas ambos se recusam a ceder. Egocentrismo, vaidade ou orgulho, esse não-querer-ceder se repete nas mais simples situações. Pense em quando você era criança. Depois de uma briga, com um colega ou até mesmo com irmãos. Para apartar, um pedido de “paz” era feito por um ser superior (os pais ou a professora), a ser firmado com um mero aperto de mão, mas nem você nem seu “oponente” deixam a birra de lado e resolvem seu conflito; qualquer semelhança com uma conferência de Estado não é mera coincidência.

Na explicação da autora do vídeo, a primeira situação que imaginamos são os vários encontros e desencontros desperdiçados em uma festa, por exemplo, onde duas pessoas querem se conhecer mas não têm coragem de ser aquele que toma a iniciativa. A quantidade de relacionamentos, amizades ou simples experiências de uma noite jogados fora, por mero orgulho ou timidez, são esquecidos na manhã seguinte, mas ao mesmo tempo são impedidos de talvez perpetuar em nossas vidas.

O mal do nosso tempo não tem nome nem razão, nossa raça é muito complexa para apontármos dedos a um só culpado. Vejo mamihlapinatapai de uma maneira um tanto paradoxal, como uma palavra de significado belo mas que propõe uma reflexão que nos deixa um tanto tristes. Uma das maiores frustrações do ser humano é sofrer pelo leite derramado. Depois que aconteceu, já era. Eu, pelo menos, nunca mais esqueço a pronúncia de mamihlapinatapai, e de seu significado pretendo nunca mais ser vítima. Torço para que daqui em diante eu a tenha como algo belo e não como lembraça para minhas frustrações; que a palavra seja eternizada e as práticas exemplificadas pela mesma sejam abolidas. Ao leitor, proponho uma mudança de atitude. Pelo bem comum.

“A experiência é o melhor professor” Georg Wilhelm Friedrich Hegel

O breve achismo de um pseudo-cinéfilo romantizado.

por Lucas França. Talvez eu saiba de cinema. Com certeza eu sei de nada.

2014 não deu para comparecer, mas nesse ano eu não podia deixar de ir. Vai aqui o meu breve “achismo” dos filmes que assisti no Festival do Rio de 2015, durante as duas semanas iniciais de outubro. Pois crítica ou análise é pra gente importante.

– Dia 5

“Jonas”

Maluco, que filme ruim. Ok, quem sou eu para dizer se o longa é bom ou ruim, não é? Culpem meus professores que me ensinaram a cultivar um senso crítico. Enfim, vamos à análise. “Jonas” acaba sendo, numa tentativa de poetizar e impactar, completamente sem noção. Os personagens são “arremessados” e tudo acontece, sem necessidade, em um ritmo atropelado e desordenado. É possível notar que houve uma grande produção para o filme, o que só aumenta a tristeza de ver que pouca coisa deu certo. Falta um certo apreço pelo roteiro e como ele se constrói. Como disse, parece que tudo é jogado, batido no liquidificador de mal jeito e dado ao espectador numa imagem bonita. Esse filme é o milkshake do McDonald’s da Av.Rio Branco na hora do almoço.

Algumas cenas são interessantes, existem certas tentativas de movimentos de câmera, mas o filme não passa disso. Apenas visualmente bonito. Um possível destaque para o Criolo falando “Babilônia”, uma criança distribuindo tapas na cara com sua atuação e a Laura Neiva, porque… Bom, porque é a Laura Neiva. Rapaziada, que mulher. Deus abençoe. Ah, o Ariclenes Barroso também está nesse filme, fazendo uma bela participação, mas dele eu falo depois.

Direção: Lô Politi.

Roteiro: Lô Politi e Élcio Verçosa.

Ano: 2015.

País: Brasil.

Reação do espectador: Risos e questionamentos audíveis de “podia ser melhor, né?”.

– Dia 8

“Terceira Pessoa” – Mostra Geração – VideoForúm

Roteiristas e diretor promissores. O melhor. Sacanagem, falta um inimaginável caminho.

Então, participei do Festival do Rio exibindo um filme próprio. É, é exatamente isso que você leu. Não sei como descrever a alegria e gratidão de fazer parte do Festival. Quando eu, Cinthia e Liporage decidimos fazer um documentário sobre separação de pais, prioritariamente mostrando a visão do adolescente que já passou por essa realidade, não podíamos imaginar o tamanho da transformação que causaríamos em nós mesmos e naqueles que assistiram.

Contei histórias através do cinema, mostrei vidas. Pude compartilhar o projeto com grandes amigos. Tive um filme exibido em tela grande. Foi tudo lindo. Até o mestre de cerimônia do evento era bonito. O jovem pode e deve fazer cinema. Todo mundo deveria ter acesso ao mundo cinematográfico, seja como produtor ou espectador, ambos são essenciais. Obrigado aos amigos, professores e meus pais que estiveram presentes desde o momento de pré-produção até a exibição do mini-doc. Eu amo vocês. Lembrem-se: estão deixando sonhar.

Direção: Victor Hugo Liporage.

Roteiro: Lucas França, Cinthia Martins e Victor Hugo Liporage.

Ano: 2015.

País: Brasil.

Reação do Espectador: “Te amo, filhinho!”. Minha mãe, aquela diva.


– Dia 10

Dois filmes seguidos. Muito cinema e amor para distribuir.

“Aspirantes” – Première Brasil

Pensa aquela palma lenta, que você puxa lá de dentro e vai numa crescente, até se misturar com todo o barulho do ambiente. Então, esse fui eu quando o filme acabou. Saí revigorado do cinema, como se tivesse presenciado uma excelente aula de direção. Movimentações suaves que permitiam o espectador se apegar ao momento, além de poucos cortes e ângulos que valorizavam ao máximo o protagonista. Aliás, belíssima atuação do Ariclenes Barroso, que levou porrada, brigou com melhor amigo e beijou na boca. Fez isso tudo e ainda ganhou o prêmio de melhor ator do Festival. O moleque vai longe.

Filme do lado B do futebol nacional, que se sustenta na realidade do esporte pra mostrar uma história de inveja, gravidez na hora errada, amigos boleiros e dificuldades da vida. Apesar de pecar em alguns toques no roteiro e não se aprofundar tanto com certos personagens (o longa é todo de Ariclenes, isso é deixado explícito em todo tempo), o que gera um certo gosto de “faltou algo”, o filme é um golaço (eu precisava).

Direção: Ives Rosenfeld (Prêmio de Melhor Direção de Ficção do Festival).

Roteiro: Ives Rosenfeld e Pedro Freire.

Ano: 2015.

País: Brasil.

Reação do Espectador: *Clap clap clap*


“The Lobster”

Badalado em Cannes, fui ver qual era. Um universo distópico no qual não existe a opção de ficar solteiro. Seria até legal para alguns, se não fosse o fato de você precisar tornar-se um animal caso não encontrasse um companheiro. Engraçado e extremamente trágico, faz uma interessante crítica aos relacionamentos atuais. Os personagens, quase em todo instante, esbanjam uma cara de “nada”. São expressões de um desespero contido, que se retraem por acomodação de existência na trama ou apenas melancolia. Liporage me disse e eu concordei: “Esses filmes gregos sem noção são ótimos”.

No entanto, o filme é cansativo. A sessão terminou e eu me senti como se estivesse sentado no computador digitando por horas. Opa, perdão. A realidade apresentada no longa choca e tem a intenção de atingir diretamente aqueles sentados em cadeiras confortáveis, sejam nas casas ou em salas de cinema.  Vejam, riam, olhem para dentro de si e torçam contra uma moça loira que chuta cachorros. Sem spoiler.

Direção: Yorgos Lanthimos.

Roteiro: Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou.

Ano: 2015.

País: Irlanda, Grécia, Reino Unido, França e Holanda. Deus abençoe a Europa. Ou não.

Reação do Espectador: “Uma bosta!”, bradou a moça da frente. Sabe de nada, ficou com nojinho.


– Dia 14

“Zoom”

Dentre os felizes pontos positivos do filme, antes de tudo, preciso destacar o principal: assisti no Imperator, dez minutos da minha humilde casa. Um longa, dentre mais de uma centena, na Zona Norte. O Festival do Rio aconteceu, predominantemente, no Centro e na Zona Sul da cidade. Os cines ainda são elitizados. Tida como cultura erudita, a sétima arte só chega na Zona Norte, Oeste e quissá Baixada através dos blockbusters, generalizando o cinema como entretenimento de final de semana. Triste realidade que precisa, urgentemente, ser modificada. Cinema é arte, transforma, expande universo e tem de ser acessível para todos.

Eu vi o próprio Mostra Geração, evento do Festival, exaltar os produtos audiovisuais de uma rapaziada de Água Santa, Tijuca, periferia de Recife, refugiados europeus e até de uma galera que veio de Cabo Frio. No entanto, o encontro de todo mundo para exibição dos trabalhos foi em Ipanema, no Espaço Oi Futuro, cinco minutos da praia. Os fatos falam por si só. Enfim, voltemos ao achismo cinéfilo, pois esses dois parágrafos foram cheios de certezas.

Três histórias que se entrelaçam da melhor maneira possível, animação misturada com live action e vários momentos de “ai, minha cabeça explodiu!”. Simplificando, “Zoom” é isso. Caô, estamos aqui para detalhar. Totalmente voltado para estética, seja na própria trama e construção artística do filme ou na crítica ao “bonito”, a noção do longa é toda dada naquilo que se vê e ouve.

A câmera é quase ininterrupta. Vai pra frente, pra trás e até gira em alguns momentos. Apesar dessa loucura, existe um propósito para tudo. O final poderia ter sido melhor trabalhado, mas encaixa bem pelo conjunto da obra. Perdoem-me os estudados em cinema, mas “Zoom” foi o meu favorito. É bonito, divertido, zomba dos filmes “senso comum” e consegue ser levado muito a sério. Ganhou meu coração.

Diretor: Pedro Morelli (também dirigiu “Entre Nós”, um belo filme).

Roteiro: Matt Hansen.

Ano: 2015.

País: Brasil/Canadá.

Reação do Espectador: “França, esse filme é muito irado!”, meu amigo, com o dedo em riste, bem na ponta do meu nariz.

Amores, é isso. Quero agradecer ao Bernardo Rodrigues que me concedeu os ingressos de “Aspirantes” e “The Lobster”. Afinal, o que seríamos de nós sem os amigos? Parabéns ao Festival do Rio com uma bela organização, mas ainda mantenho a crítica: o resto da cidade quer cinema. Ano que vem tem mais, se Papai do Céu quiser.

Xinguem, discutam, contestem, digam que eu não sei nada sobre cinema e esperem de mim um sincero aperto de mão e forte abraço.

Os filmes são vivos.