O breve achismo de um pseudo-cinéfilo romantizado.

por Lucas França. Talvez eu saiba de cinema. Com certeza eu sei de nada.

2014 não deu para comparecer, mas nesse ano eu não podia deixar de ir. Vai aqui o meu breve “achismo” dos filmes que assisti no Festival do Rio de 2015, durante as duas semanas iniciais de outubro. Pois crítica ou análise é pra gente importante.

– Dia 5

“Jonas”

Maluco, que filme ruim. Ok, quem sou eu para dizer se o longa é bom ou ruim, não é? Culpem meus professores que me ensinaram a cultivar um senso crítico. Enfim, vamos à análise. “Jonas” acaba sendo, numa tentativa de poetizar e impactar, completamente sem noção. Os personagens são “arremessados” e tudo acontece, sem necessidade, em um ritmo atropelado e desordenado. É possível notar que houve uma grande produção para o filme, o que só aumenta a tristeza de ver que pouca coisa deu certo. Falta um certo apreço pelo roteiro e como ele se constrói. Como disse, parece que tudo é jogado, batido no liquidificador de mal jeito e dado ao espectador numa imagem bonita. Esse filme é o milkshake do McDonald’s da Av.Rio Branco na hora do almoço.

Algumas cenas são interessantes, existem certas tentativas de movimentos de câmera, mas o filme não passa disso. Apenas visualmente bonito. Um possível destaque para o Criolo falando “Babilônia”, uma criança distribuindo tapas na cara com sua atuação e a Laura Neiva, porque… Bom, porque é a Laura Neiva. Rapaziada, que mulher. Deus abençoe. Ah, o Ariclenes Barroso também está nesse filme, fazendo uma bela participação, mas dele eu falo depois.

Direção: Lô Politi.

Roteiro: Lô Politi e Élcio Verçosa.

Ano: 2015.

País: Brasil.

Reação do espectador: Risos e questionamentos audíveis de “podia ser melhor, né?”.

– Dia 8

“Terceira Pessoa” – Mostra Geração – VideoForúm

Roteiristas e diretor promissores. O melhor. Sacanagem, falta um inimaginável caminho.

Então, participei do Festival do Rio exibindo um filme próprio. É, é exatamente isso que você leu. Não sei como descrever a alegria e gratidão de fazer parte do Festival. Quando eu, Cinthia e Liporage decidimos fazer um documentário sobre separação de pais, prioritariamente mostrando a visão do adolescente que já passou por essa realidade, não podíamos imaginar o tamanho da transformação que causaríamos em nós mesmos e naqueles que assistiram.

Contei histórias através do cinema, mostrei vidas. Pude compartilhar o projeto com grandes amigos. Tive um filme exibido em tela grande. Foi tudo lindo. Até o mestre de cerimônia do evento era bonito. O jovem pode e deve fazer cinema. Todo mundo deveria ter acesso ao mundo cinematográfico, seja como produtor ou espectador, ambos são essenciais. Obrigado aos amigos, professores e meus pais que estiveram presentes desde o momento de pré-produção até a exibição do mini-doc. Eu amo vocês. Lembrem-se: estão deixando sonhar.

Direção: Victor Hugo Liporage.

Roteiro: Lucas França, Cinthia Martins e Victor Hugo Liporage.

Ano: 2015.

País: Brasil.

Reação do Espectador: “Te amo, filhinho!”. Minha mãe, aquela diva.


– Dia 10

Dois filmes seguidos. Muito cinema e amor para distribuir.

“Aspirantes” – Première Brasil

Pensa aquela palma lenta, que você puxa lá de dentro e vai numa crescente, até se misturar com todo o barulho do ambiente. Então, esse fui eu quando o filme acabou. Saí revigorado do cinema, como se tivesse presenciado uma excelente aula de direção. Movimentações suaves que permitiam o espectador se apegar ao momento, além de poucos cortes e ângulos que valorizavam ao máximo o protagonista. Aliás, belíssima atuação do Ariclenes Barroso, que levou porrada, brigou com melhor amigo e beijou na boca. Fez isso tudo e ainda ganhou o prêmio de melhor ator do Festival. O moleque vai longe.

Filme do lado B do futebol nacional, que se sustenta na realidade do esporte pra mostrar uma história de inveja, gravidez na hora errada, amigos boleiros e dificuldades da vida. Apesar de pecar em alguns toques no roteiro e não se aprofundar tanto com certos personagens (o longa é todo de Ariclenes, isso é deixado explícito em todo tempo), o que gera um certo gosto de “faltou algo”, o filme é um golaço (eu precisava).

Direção: Ives Rosenfeld (Prêmio de Melhor Direção de Ficção do Festival).

Roteiro: Ives Rosenfeld e Pedro Freire.

Ano: 2015.

País: Brasil.

Reação do Espectador: *Clap clap clap*


“The Lobster”

Badalado em Cannes, fui ver qual era. Um universo distópico no qual não existe a opção de ficar solteiro. Seria até legal para alguns, se não fosse o fato de você precisar tornar-se um animal caso não encontrasse um companheiro. Engraçado e extremamente trágico, faz uma interessante crítica aos relacionamentos atuais. Os personagens, quase em todo instante, esbanjam uma cara de “nada”. São expressões de um desespero contido, que se retraem por acomodação de existência na trama ou apenas melancolia. Liporage me disse e eu concordei: “Esses filmes gregos sem noção são ótimos”.

No entanto, o filme é cansativo. A sessão terminou e eu me senti como se estivesse sentado no computador digitando por horas. Opa, perdão. A realidade apresentada no longa choca e tem a intenção de atingir diretamente aqueles sentados em cadeiras confortáveis, sejam nas casas ou em salas de cinema.  Vejam, riam, olhem para dentro de si e torçam contra uma moça loira que chuta cachorros. Sem spoiler.

Direção: Yorgos Lanthimos.

Roteiro: Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou.

Ano: 2015.

País: Irlanda, Grécia, Reino Unido, França e Holanda. Deus abençoe a Europa. Ou não.

Reação do Espectador: “Uma bosta!”, bradou a moça da frente. Sabe de nada, ficou com nojinho.


– Dia 14

“Zoom”

Dentre os felizes pontos positivos do filme, antes de tudo, preciso destacar o principal: assisti no Imperator, dez minutos da minha humilde casa. Um longa, dentre mais de uma centena, na Zona Norte. O Festival do Rio aconteceu, predominantemente, no Centro e na Zona Sul da cidade. Os cines ainda são elitizados. Tida como cultura erudita, a sétima arte só chega na Zona Norte, Oeste e quissá Baixada através dos blockbusters, generalizando o cinema como entretenimento de final de semana. Triste realidade que precisa, urgentemente, ser modificada. Cinema é arte, transforma, expande universo e tem de ser acessível para todos.

Eu vi o próprio Mostra Geração, evento do Festival, exaltar os produtos audiovisuais de uma rapaziada de Água Santa, Tijuca, periferia de Recife, refugiados europeus e até de uma galera que veio de Cabo Frio. No entanto, o encontro de todo mundo para exibição dos trabalhos foi em Ipanema, no Espaço Oi Futuro, cinco minutos da praia. Os fatos falam por si só. Enfim, voltemos ao achismo cinéfilo, pois esses dois parágrafos foram cheios de certezas.

Três histórias que se entrelaçam da melhor maneira possível, animação misturada com live action e vários momentos de “ai, minha cabeça explodiu!”. Simplificando, “Zoom” é isso. Caô, estamos aqui para detalhar. Totalmente voltado para estética, seja na própria trama e construção artística do filme ou na crítica ao “bonito”, a noção do longa é toda dada naquilo que se vê e ouve.

A câmera é quase ininterrupta. Vai pra frente, pra trás e até gira em alguns momentos. Apesar dessa loucura, existe um propósito para tudo. O final poderia ter sido melhor trabalhado, mas encaixa bem pelo conjunto da obra. Perdoem-me os estudados em cinema, mas “Zoom” foi o meu favorito. É bonito, divertido, zomba dos filmes “senso comum” e consegue ser levado muito a sério. Ganhou meu coração.

Diretor: Pedro Morelli (também dirigiu “Entre Nós”, um belo filme).

Roteiro: Matt Hansen.

Ano: 2015.

País: Brasil/Canadá.

Reação do Espectador: “França, esse filme é muito irado!”, meu amigo, com o dedo em riste, bem na ponta do meu nariz.

Amores, é isso. Quero agradecer ao Bernardo Rodrigues que me concedeu os ingressos de “Aspirantes” e “The Lobster”. Afinal, o que seríamos de nós sem os amigos? Parabéns ao Festival do Rio com uma bela organização, mas ainda mantenho a crítica: o resto da cidade quer cinema. Ano que vem tem mais, se Papai do Céu quiser.

Xinguem, discutam, contestem, digam que eu não sei nada sobre cinema e esperem de mim um sincero aperto de mão e forte abraço.

Os filmes são vivos.

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