Mamihlapinatapai

Por Victor Hugo Liporage, aos nativos da Terra do Fogo, que conseguiram passar ao mundo suas virtudes da maneira mais humilde possível.

Assisti recentemente A Vida em Um Dia (2011). O filme é uma proposta dos produtores em parceria com o YouTube, na qual os participantes deveriam enviar vídeos contando sobre um dia da sua vida. Nos vídeos, três perguntas deveriam ser respondidas: “o que há no seu bolso?”; “o que você teme?” e “o que você ama?”. As respostas foram momentos de pura autenticidade e comoção.

Um homem cuida de sua mulher que está se recuperando de um câncer, e a pergunta o que ela ama. A esposa, por sua vez, pergunta ao marido o que ele teme. Ele responde: “não temo mais nada”, e completa “acho que meu maior medo era que você tivesse câncer, e você o teve. Depois meu medo era que o câncer voltasse, e voltou. Agora está tudo resolvido, não temo mais nada”. No outro lado do mundo, um rapaz comenta o quanto ama sua geladeira. Uma forma diferente de amor, mas não menos significante.

Em um dos relatos, uma australiana diz o que ama. Diferente da maioria, ela está sozinha numa floresta, com a câmera na mão. Ela diz que ama a palavra mamihlapinatapai, expressão dos extintos nativos da Terra do Fogo, arquipélogo sulamericano. Em suas palavras, ela define mamihlapinatapai como “uma troca de olhares entre duas pessoas, cada qual querendo que a outra tome iniciativa em algo que ambas desejam, mas nenhuma tem a atitude.”

Mamihlapinatapai foi considerada em 2009 pelo Guiness como “a palavra mais sucinta do mundo”, em razão de seu amplo significado, além da sua invejável unidade, não havendo sinônimo próximo que traduza definição parecida.

mamihlapinatapai

A paixão na qual a australiana exemplifica a palavra que ama pode ser posta a altura do significado dessa palavra para as relações interpessoais em nossa sociedade.

Nos moldes atuais, onde essas relações são motivadas por segundos interesses, vaidade e superficialidade, mamihlapinatapai aparece como uma definição para o nosso tempo. Como por exemplo, uma conferência da ONU. Sabemos que Palestina e Israel querem paz para o seu povo, mas ambos se recusam a ceder. Egocentrismo, vaidade ou orgulho, esse não-querer-ceder se repete nas mais simples situações. Pense em quando você era criança. Depois de uma briga, com um colega ou até mesmo com irmãos. Para apartar, um pedido de “paz” era feito por um ser superior (os pais ou a professora), a ser firmado com um mero aperto de mão, mas nem você nem seu “oponente” deixam a birra de lado e resolvem seu conflito; qualquer semelhança com uma conferência de Estado não é mera coincidência.

Na explicação da autora do vídeo, a primeira situação que imaginamos são os vários encontros e desencontros desperdiçados em uma festa, por exemplo, onde duas pessoas querem se conhecer mas não têm coragem de ser aquele que toma a iniciativa. A quantidade de relacionamentos, amizades ou simples experiências de uma noite jogados fora, por mero orgulho ou timidez, são esquecidos na manhã seguinte, mas ao mesmo tempo são impedidos de talvez perpetuar em nossas vidas.

O mal do nosso tempo não tem nome nem razão, nossa raça é muito complexa para apontármos dedos a um só culpado. Vejo mamihlapinatapai de uma maneira um tanto paradoxal, como uma palavra de significado belo mas que propõe uma reflexão que nos deixa um tanto tristes. Uma das maiores frustrações do ser humano é sofrer pelo leite derramado. Depois que aconteceu, já era. Eu, pelo menos, nunca mais esqueço a pronúncia de mamihlapinatapai, e de seu significado pretendo nunca mais ser vítima. Torço para que daqui em diante eu a tenha como algo belo e não como lembraça para minhas frustrações; que a palavra seja eternizada e as práticas exemplificadas pela mesma sejam abolidas. Ao leitor, proponho uma mudança de atitude. Pelo bem comum.

“A experiência é o melhor professor” Georg Wilhelm Friedrich Hegel

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