Uma carta à Anna Muylaert

Sobre “Que Horas Ela Volta?” e a previsibilidade da Academia.

Seu filme é o filme brasileiro mais popular dos últimos anos! Lembro bem, liguei a TV de manhã e ouvi, “Camila Márdila e Regina Casé dividem o prêmio de Melhor Atriz Internacional em Sundace”. Na hora, só pensei, “Regina tá ficando famosa internacionalmente? Tenho que conferir esse filme”.

Desde então, foi só sucesso. Várias indicações internacionais e, inclusive, alguns prêmios. Mas acima de tudo, Anna, seu filme incomodou. Fabinho, um sinhôzinho em sua Casa Grande; Dona Bárbara, a patroa e esposa do Barão; e o Barão – sendo Barão – se apaixonando pela filha da empregada.

Se a sua intenção era fazer uma obra cheia de simbolismos e que apertasse a ferida da classe média alta brasileira, acertou em cheio. O mais bonito é que sua equipe de distribuição não se restringiu aos cinemas desta mesma classe média alta, mas ampliou-se aos cinemas populares. E foi a um desses cinema que levei a minha vó.

“Quer ver aquele filme novo da Regina Casé, vó?”

“Você vai me levar pro cinema?”

“Vamos juntos ao cinema, sim, vó.”

“Eu vou! Mas só não passa lá na Zona Sul?”

“Tá passando no cinema do shopping.”

“Me leva!”

Meu primeiro obrigado é esse. Obrigado por terem batido na porta das grandes redes de cinema e negociado com eles a distribuição ampla do filme, caso contrário, eu não teria levado a minha vó. Foram nesses mesmos cinemas populares onde as domésticas puderam ver; se identificar; trazer suas famílias e chorar junto com a Val no momento em que ela entra na piscina. Sabe o que eu acho? “Que horas ela volta?” é uma grande metáfora para a “entrada na piscina”. Entrou em várias piscinas, só não conseguiu entrar no ofurô da Academia.

Imagina a Regina Casé recebendo o Oscar das mãos de Octavia Spencer; que momento! Imagina o seu discurso, Anna, tão ácido quanto seu filme… Foi quase. Para a tristeza do cinema brasileiro, nada disso irá acontecer.

Olha, considero a Academia uma praia particular que a cada ano envia seus convites limitadíssimos aos seus “bons frequentadores”. Tudo bem que o Oscar vem perdendo credibilidade ano a ano, mas sua cerimônia ainda é o maior momento do cinema internacional. Tenho certeza que assisti-la em casa, ano após ano, mexe com seu coração tanto quanto mexe com o meu, de futuro aspirante a cineasta. Mas vai saber, talvez seja tudo uma grande propaganda dessa “praia particular”. Alguns convites caridosos são distribuídos a cada ano, mas no fim, quem têm lugar garantido são as pessoas ilustres e requintadas. No ofurô da Academia, não apenas cabe pouca gente, como quem tá dentro, não sai.

Além do mais, como toda boa festa, às vezes alguém bebe demais e fala algumas “besteiras”. Lembra no ano passado, a Patricia Arquette? É exatamente assim que eu imagino seu discurso: lindas palavras contra o machismo na indústria cinematográfica. Ela foi ovacionada e a produção ouviu calada. Indireta recebida.

Um ano depois, você foi a primeira cineasta brasileira em 30 anos a figurar alguma concorrência no Oscar, mas seu filme não está na lista dos nove pré indicados ao Melhor Filme Estrangeiro, e essa mesma lista tem nove homens… 

É, parece que Arquette estava certa.

Ainda por cima, o cinema europeu domina a lista. Apenas um representante da Ásia e um representante da América Latina fazem parecer que há uma “cota” na Academia. Como se não bastasse, os temas também se repetem. Dos 9 finalistas, seis filmes têm guerra como tema e quatro deles falam sobre o nazismo de alguma forma.

Eu sei que você entende, Anna, mas sempre é bom ressaltar: o objetivo não é fazer juízo de valor do que é bom ou ruim, dizer se você foi injustiçada ou não; mas sim atentar à previsibilidade da cerimônia mais grandiosa do cinema. São várias as temáticas subaproveitadas que poderiam vir à tona num evento de cunho político e social tão grande. Infelizmente, a premiação vem sofrendo uma segmetanção ideológica clara nos últimos anos – repare nos últimos premiados, boa parte deles são uma exaltação ao americanismo.

Vê se você concorda comigo:

Talvez a Academia precisa parar de remoer o Nazismo e se atentar ao terrorismo – mas isso não significa premiar filmes que exaltem as tropas americanas, e sim os que atentam ao sofrimento das mães iraquianas -. As atuações esplendorosas de Leonardo DiCaprio nunca serão recompensadas enquanto forem sobre um antiherói viciado em drogas e bebidas, e o cinema nacional só ganhará um Oscar quando começar a fazer filmes sob medida.

 

Obrigado, Anna, por manter fiel em nosso cinema as brasilidades.

Obrigado, Anna, por não fazer filme sob medida.

Com toda a admiração do mundo,

Victor Hugo Liporage

 

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