Dias de Classe A

Aos que catam lixo e dizem “obrigado”.

Eu sou Lucas França, tenho 18 anos, moro em Piedade (perto da Igreja de São Jorge), Zona Norte carioca, e passei meu Natal no Sheraton Barra, hotel 5 estrelas, separado da praia por apenas dois sinais de pedestre. Graças ao bom Deus e as boas amizades que cultivamos na vida, eu, meus pais e uma outra família amiga, convidados por um amigo, tivemos a oportunidade de viver, por poucos dias, a realidade classe A do Rio de Janeiro. Confesso que vi muitas coisas estranhas.

Alternando entre cama e praia, eu me obrigava a observar certos acontecimentos ao meu redor. Poucos “bom dia” e “obrigado” eram ditos entre hóspedes e moradores, independentes de nacionalidade. No elevador, era entrar mudo e sair calado. Governantas, garçons e seguranças, sempre transitando pelo hotel, eram bastante receptivos. Gente da gente.

Sem me alongar muito, o que me instigou a escrever esse relato foi a foto abaixo.

12436122_898705383541217_632598333_nGarrafas de Chandon (avaliadas em cerca de 75 reais cada), latas de cerveja Heineken e água. Cadeiras do Sheraton, toalhas do Sheraton, barraca do Sheraton e, ao fundo, o próprio Sheraton.”

Contextualizando, este espaço na praia, localizado exatamente no meio das duas torres do hotel, é tomado por cadeiras e utensílios Sheraton, numa completa apropriação e privatização da areia, visando o conforto dos hóspedes. A foto acima é o lixo deixado por pessoas que se utilizaram da área especial. Garrafas de Chandon e cervejas importadas deixadas no ambiente que, em tese, deveria ser público.

Ao final do dia, alguns rapazes, de maioria preta, se reúnem e recolhem o lixo deixado pelo pessoal das cadeiras bonitas e toalhas confortáveis. Convenhamos, imagina se no dia seguinte o pessoal chega na areia de novo e encontra tudo sujo, com restos espalhados… Que tragédia seria.

Gilberto Freire, em 1933, ao publicar o livro “Casa Grande e Senzala”, marcou diversos fatores de exclusão social, econômica e racial que construíram a sociedade brasileira. Os hóspedes do Sheraton, em 2015, marcam diversos fatores de exclusão social, econômica e racial que, infelizmente, ainda fazem parte da sociedade brasileira.

Ademais, algumas informações um tanto quanto notórias:

– Terral, restaurante do hotel, com vista para o mar, tem seu preço estipulado de 69 reais até 85 por pessoa, dependendo do dia e o que se vai comer.

– A diária do hotel varia entre 880 e 2000 reais.

– O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da Barra da Tijuca, bairro no qual o Sheraton está estabelecido, é igual a 0.959, tido como “de alto desenvolvimento”.

– Dar bom dia e recolher lixo de Chandon e Heineken, é de graça e ainda ajuda a limpar a praia.

Este relato não é algum tipo de repúdio ou degradação da imagem do hotel, pelo contrário, é um incentivo ao Sheraton para que eduque seus hóspedes e moradores. Um estímulo à boa vivência. Trabalhar a empatia é uma virtude 5 estrelas.

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