As adversidades da mulher contemporânea em 8 filmes

Uma análise da feminilidade no cinema do século XXI. A mulher em seus confrontos contra o mundo, contra a moral e contra si mesma. A partir de oito filmes contemporâneos, conhecemos personagens com um grau de representatividade importantíssimo, sob o pano de fundo situações que vão desde banais à extremamente adversas, como aborto, solidão, homossexualidade, prostituição, gênero, classe social, patriarcalismo e maternidade.

Cinco Graças (Mustang, 2015)

As mulheres que não são mais meninas

Em um vilarejo turco, cinco irmãs – a mais nova, uma criança, e mais velha, quase adulta – vivem presas sob as normas patriarcais, conservadoras e machistas de sua família. Presas não apenas fisicamente, como psicologicamente. Vítimas de uma criação à cabresto, com seus casamentos arranjados e educação para servir de dona de casa, as “cinco graças” são flores desabrochando, mas que se vêem obrigadas a abrir mão de suas feminilidades. A mais nova sonha em ir ao estádio de futebol, numa partida exclusiva para mulheres. Ela e as meninas do vilarejo se reunem e pegam o ônibus à Istambul; já sua irmã mais velha foge à noite pra encontrar o namorado. A saída da “caverna” é o que há de mais significativo para as meninas que cresceram sob restrições. É dever da família estimular a menina a ser mulher. Deixe-a crescer, errar e experimentar. Uma cineasta leva ao Oscar de 2016 um filme com e sobre mulheres, para as mulheres.

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Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011)

A mulher que odeia ser mãe

Precisamos Falar Sobre Kevin é uma história de uma família que fracassou por conta de seu bebê, e de um bebê que fracassou por conta de sua família.

Eva nunca quis ter um filho. Seu marido insistia, ela refutava. Os motivos? Era independente, dona do próprio negócio e fazia viagens frequentes, o que deixava sua vida muito movimentada. Ter um filho a faria abrir mão de tudo aquilo, porque a responsabilidade da maternidade que cai sobre a mulher é enorme, e Eva não estava preparada. Seu filho Kevin cresceu odioso e dissimulado, o que o levou a cometer uma chacina na escola e desenvolver um distúrbio de psicopatia.  A exemplo das manifestações recentes de mães em redes sociais, Eva sempre deixou claro: ela amava seu filho, mas odiava ser mãe, afinal, nem toda mulher precisa ser mãe.

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4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 Months, 3 Weeks, 2 Days, 2007)

A mulher que quer abortar

20 semanas ou 5 meses é o tempo limite para realização de um aborto. O filho de Gabita está há 4 meses, 3 semanas e 2 dias no útero, e a universitária optou por abortar a criança. Mas Gabita não está sozinha, sua amiga Otilia é quem monta toda a logística, alugando um quarto de hotel e contratando o feitor do serviço. Em nenhum momento o pai aparece. Em nenhum momento a família aparece. Se no Brasil a clandestinidade do aborto é chocante, imagine numa Romênia dos anos 80 sob regime ditatorial. A ilegalidade da prática abandona uma moça que simplesmente cometeu um erro e quer solucioná-lo o quanto antes. Certo ou não, o aborto existe, e mesmo sendo contra a lei, não vai parar. A mulher precisa de segurança, suporte e liberdade de escolha, a função do Estado Laico é justamente garanti-la seus direitos. Gabita não os teve e o filme mostra a pior resolução possível da situação. Vencedor da Palma de Ouro em 2007.

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Para Sempre Lilya (Lilya 4 Ever, 2002)

A mulher comercializada

Em seu primeiro filme, Lukas Moodysson mostrou a história de duas meninas que se apaixonam no Ensino Médio. Já em Para Sempre Lilya, seu terceiro filme, o cineasta traz a história de uma menina de 16 anos que vai perdendo se desapaixona pela vida.

Residente de um subúrbio da antiga União Soviética, Lilya mora sozinha, abandonada pela mãe. Ela tem como amigo o jovem Volodya, de 11 anos. No decorrer do filme, Lilya se apaixona por um rapaz que a leva à Suécia prometendo um futuro melhor. Lá, ela se vê mais abandonada que nunca e em meio a um esquema de prostituição. Volodya a encontra em seus sonhos antes da tragédia, e representa para Lilya a inocência de uma infância que ela nunca teve, em função da necessidade prematura por amadurecimento. O filme mostra como a falta da estrutura familiar gera a desestruturação de uma vida, além de representar o destrutivo machismo de uma sociedade que se aproveita da fragilidade da mulher, as fazendo de comércio.

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Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003)

A mulher solitária

Sofia Coppola é uma mulher instrínseca para o cinema, em função de seu olhar sensível e representativo quanto ao feminino. Em Encontros e Desencontros, Charlotte é uma mulher que têm seu copo cheio. O uísque que ela bebe no saguão do hotel traz consigo desde suas frustrações às grandes sabedorias acadêmicas, fruto de sua recém graduação em filosofia. Uma mulher que ao conhecer um homem igualmente solitário, experimenta o novo: tentar esvaziar o copo. Ela já era livre e já experimentava coisas novas, mas nunca com plenitude. Apesar de casada, ao se encontrar com um estranho pelo qual ela cria empatia, Charlotte se vê compreendida. Ela desiste de superar a solidão sozinha. Desiste de ser a super mulher que consegue brigar com a rotina e as convenções relacionamentais: ela opta pelo mais díficil, pelo mais intenso e pelo menos garantindo. Uma mulher à procura de um propósito, visando a felicidade plena e a superação da solidão. Vencedor de Melhor Roteiro Original no Oscar de 2004.

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Tangerine (Idem, 2015)

A mulher que quer ser mulher

Sin-Dee é uma prostituta transsexual que teve seu coração partido pelo cafetão que a traiu. Para fazer justiça com as próprias mãos, ela procura o homem que a magoou pelas ruas de Los Angeles no crepúsculo vespertino de uma véspera de Natal. Com sua amiga Alexandra, também prostituta e transsexual, representam juntas toda a marginalização sofrida pelas trans em situações humilhantes no âmbito da prostituição, roubo e tráfico de drogas, cenário recorrente nas principais metrópoles do mundo. Sin-Dee sonha em ser amada, enquanto Alexandra sonha em ser cantora. Um sonho em comum? Ser mulher. Mas ao mesmo tempo, ambas dividem seu tempo entre punhetas e trocados na Cidade dos Sonhos roubados.

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Que Horas Ela Volta? (Idem, 2015)

A mulher que não baixa a cabeça

Anna Muylaert conseguiu vários feitos para a mulher no cinema brasileiro: elevou Regina Casé, conhecida figura popular, a uma atriz premiada internacionalmente; pôs seu filme em horário nobre de rede nacional e com um alcance gigantesco; esteve na lista prévia de indicados ao Oscar e, sobretudo: fez um filme com mulheres fortes, autênticas e representativas, dentre elas, chama a atenção a personagem Jessica, que bate de frente com a patroa, tenta abrir os olhos da mãe e, ao fim, mostra a sua senhoria que é tão capaz quanto eles. Jessica passa no vestibular e o filho da patroa, não. Uma mulher símbolo da luta de tantas outras brasileiras, vivendo uma situação que é tão absurda quanto verdadeira. A cineasta deu ao cinema nacional uma obra prima, problematizadora e que levanta bandeiras pelas domésticas, pelo preconceito, e por último, mas não menos importante, pela força da mulher que estuda, que limpa chão e que constrói uma família mesmo na adversidade. Em outras palavras, o filme de Muylaert é também uma homenagem à força da mulher brasileira.

que horas

 

Azul é a Cor Mais Quente (La Vie d’Adèle, 2013)

A mulher que quer amar outra mulher

Poucos romances conseguem chegar a sublimidade atingida por Azul é a Cor Mais Quente. Sob as interpretações sensíveis de Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux, a relação homessexual de Emma é Adèle deu ao cinema e ao espectador uma experiência muito mais singela e autêntica que um monte de romances héteros, ao mesmo tempo em que rompeu vários tabus, mostrando sexo quase que explícito entre as duas personagens. Talvez aí esteja o trunfo do filme: o explícito não agride nem choca, mas excita e emociona. Com um relacionamento intenso e irregular como pano de fundo, Azul é a Cor Mais Quente veio para representar as mulheres que se amam e, acima de tudo, humanizá-las. Ao som de “I Follow Rivers”, a gente se apaixona mais por esse rolo gay do que por noventa por cento dos romances “normais” que têm por aí. Vencedor da Palma de Ouro em 2013.

Esse texto é dedicado a minha mãe e minha vó. Sobretudo, dedicado à Millena; menina que com seu jeito mulher me ensina a virar homem.

A todas as mulheres que fizeram e fazem de mim o que sou, feliz Dia da Mulher.

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