Meu eu encadernado

Pra minha mãe, que um dia me deu esse caderno e disse: “para de encher a paciência e vai passar o tempo!”. O tempo ainda tá passando

Tá vendo esse caderno? Ele me salvou algumas vezes. Vou explicar melhor.

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Hoje, dia 1 abril de 2016, faz dois anos que eu escrevo nele. Tal caderno já passou por: três términos de relacionamentos, o ensino médio, um acesso à faculdade, brigas e reconciliações com os pais, algumas viagens, declarações de amor nunca lidas, muitos filmes, manifestos de revolta contra eu mesmo, orações e uma porrada de porradas.

Comemoro esse aniversário com a certeza de que, após minha entrada no universo da escrita, me sinto mais leve e verdadeiro. Acredito muito que transpassar sentimentos e ideias pro papel ou pro computador são formas de se expor e dialogar. Nos tempos sombrios nos quais estamos passando, me parece que o diálogo, consigo próprio e com os outros, iguais, é um ato de subversão.

Apesar de todos esses aspectos que aparecem, anseio em dizer que escrever me deu liberdade. Sinto que existo, de maneira inteira e democrática (realidade que vem sendo fortemente atacada, infelizmente), quando pego a caneta. Quase um ritual de autoconhecimento. Nas linhas eu existo sem medo de ser. Não tem problema errar plural, ter letra feia ou usar parágrafo com mais ou menos linhas do que o outro.

Sempre que começo a escrever, chega à minha mente alguns pensamentos de pessoas que me inspiram muito a continuar andando por esse caminho de lápis e papel. De maneira breve, posso listá-los aqui:

Rashid – Rapper – “Diário de Bordo (Parte V)”

Quanto mais eu esvazio minha caneta, mais ela pesa.”

Criolo – Rapper – “É o Teste”

“Caneta e caderno, minhas armas descrevi.”

Daniel Gaivota – Professor de Filosofia – Uma de suas muitas aulas que me encantaram

“Uma folha em branco, na realidade, não está ali pra ser preenchida, mas sim pra ser esvaziada.”

Sugiro que vocês tenham um lugar pra esvaziar as canetas. Foi uma das melhores coisas que aconteceu aqui desse lado da Zona Norte carioca.

Parabéns pro caderninho, estou salvo. Apesar de ninguém te ler, eu aprendi a me expor.

PS: o símbolo na capa é o “num”, letra “N” do alfabeto hebraico e tem como significado “Nazareno”. Em certa ocasião, cristãos do Iraque tiveram suas casas e negócios marcados com tal símbolo. Identificados, eram obrigados a seguir o caminho da ISIS, fugir ou morrer. Serve como uma lembrança, pra me mostrar que o pulso ainda pulsa e que eu preciso continuar falando, escrevendo e me movimentando.

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Um comentário sobre “Meu eu encadernado

  1. Meus cadernos (nunca é um só, saio escrevendo em vários ao mesmo tempo) também já me salvaram muitas vezes! Tão bom jogar tudo ali, na página, você se sente até mais leve. E isso me lembra uma música que eu amo, Addict With A Pen:

    “In fact,
    I’m only at it again
    As an addict with a pen
    Who’s addicted to the wind
    As it blows me back and fourth
    Mindless, spineless, and pretend
    Of course I’ll be here again
    See you tomorrow”

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