Mamihlapinatapai

Por Victor Hugo Liporage, aos nativos da Terra do Fogo, que conseguiram passar ao mundo suas virtudes da maneira mais humilde possível.

Assisti recentemente A Vida em Um Dia (2011). O filme é uma proposta dos produtores em parceria com o YouTube, na qual os participantes deveriam enviar vídeos contando sobre um dia da sua vida. Nos vídeos, três perguntas deveriam ser respondidas: “o que há no seu bolso?”; “o que você teme?” e “o que você ama?”. As respostas foram momentos de pura autenticidade e comoção.

Um homem cuida de sua mulher que está se recuperando de um câncer, e a pergunta o que ela ama. A esposa, por sua vez, pergunta ao marido o que ele teme. Ele responde: “não temo mais nada”, e completa “acho que meu maior medo era que você tivesse câncer, e você o teve. Depois meu medo era que o câncer voltasse, e voltou. Agora está tudo resolvido, não temo mais nada”. No outro lado do mundo, um rapaz comenta o quanto ama sua geladeira. Uma forma diferente de amor, mas não menos significante.

Em um dos relatos, uma australiana diz o que ama. Diferente da maioria, ela está sozinha numa floresta, com a câmera na mão. Ela diz que ama a palavra mamihlapinatapai, expressão dos extintos nativos da Terra do Fogo, arquipélogo sulamericano. Em suas palavras, ela define mamihlapinatapai como “uma troca de olhares entre duas pessoas, cada qual querendo que a outra tome iniciativa em algo que ambas desejam, mas nenhuma tem a atitude.”

Mamihlapinatapai foi considerada em 2009 pelo Guiness como “a palavra mais sucinta do mundo”, em razão de seu amplo significado, além da sua invejável unidade, não havendo sinônimo próximo que traduza definição parecida.

mamihlapinatapai

A paixão na qual a australiana exemplifica a palavra que ama pode ser posta a altura do significado dessa palavra para as relações interpessoais em nossa sociedade.

Nos moldes atuais, onde essas relações são motivadas por segundos interesses, vaidade e superficialidade, mamihlapinatapai aparece como uma definição para o nosso tempo. Como por exemplo, uma conferência da ONU. Sabemos que Palestina e Israel querem paz para o seu povo, mas ambos se recusam a ceder. Egocentrismo, vaidade ou orgulho, esse não-querer-ceder se repete nas mais simples situações. Pense em quando você era criança. Depois de uma briga, com um colega ou até mesmo com irmãos. Para apartar, um pedido de “paz” era feito por um ser superior (os pais ou a professora), a ser firmado com um mero aperto de mão, mas nem você nem seu “oponente” deixam a birra de lado e resolvem seu conflito; qualquer semelhança com uma conferência de Estado não é mera coincidência.

Na explicação da autora do vídeo, a primeira situação que imaginamos são os vários encontros e desencontros desperdiçados em uma festa, por exemplo, onde duas pessoas querem se conhecer mas não têm coragem de ser aquele que toma a iniciativa. A quantidade de relacionamentos, amizades ou simples experiências de uma noite jogados fora, por mero orgulho ou timidez, são esquecidos na manhã seguinte, mas ao mesmo tempo são impedidos de talvez perpetuar em nossas vidas.

O mal do nosso tempo não tem nome nem razão, nossa raça é muito complexa para apontármos dedos a um só culpado. Vejo mamihlapinatapai de uma maneira um tanto paradoxal, como uma palavra de significado belo mas que propõe uma reflexão que nos deixa um tanto tristes. Uma das maiores frustrações do ser humano é sofrer pelo leite derramado. Depois que aconteceu, já era. Eu, pelo menos, nunca mais esqueço a pronúncia de mamihlapinatapai, e de seu significado pretendo nunca mais ser vítima. Torço para que daqui em diante eu a tenha como algo belo e não como lembraça para minhas frustrações; que a palavra seja eternizada e as práticas exemplificadas pela mesma sejam abolidas. Ao leitor, proponho uma mudança de atitude. Pelo bem comum.

“A experiência é o melhor professor” Georg Wilhelm Friedrich Hegel

O breve achismo de um pseudo-cinéfilo romantizado.

por Lucas França. Talvez eu saiba de cinema. Com certeza eu sei de nada.

2014 não deu para comparecer, mas nesse ano eu não podia deixar de ir. Vai aqui o meu breve “achismo” dos filmes que assisti no Festival do Rio de 2015, durante as duas semanas iniciais de outubro. Pois crítica ou análise é pra gente importante.

– Dia 5

“Jonas”

Maluco, que filme ruim. Ok, quem sou eu para dizer se o longa é bom ou ruim, não é? Culpem meus professores que me ensinaram a cultivar um senso crítico. Enfim, vamos à análise. “Jonas” acaba sendo, numa tentativa de poetizar e impactar, completamente sem noção. Os personagens são “arremessados” e tudo acontece, sem necessidade, em um ritmo atropelado e desordenado. É possível notar que houve uma grande produção para o filme, o que só aumenta a tristeza de ver que pouca coisa deu certo. Falta um certo apreço pelo roteiro e como ele se constrói. Como disse, parece que tudo é jogado, batido no liquidificador de mal jeito e dado ao espectador numa imagem bonita. Esse filme é o milkshake do McDonald’s da Av.Rio Branco na hora do almoço.

Algumas cenas são interessantes, existem certas tentativas de movimentos de câmera, mas o filme não passa disso. Apenas visualmente bonito. Um possível destaque para o Criolo falando “Babilônia”, uma criança distribuindo tapas na cara com sua atuação e a Laura Neiva, porque… Bom, porque é a Laura Neiva. Rapaziada, que mulher. Deus abençoe. Ah, o Ariclenes Barroso também está nesse filme, fazendo uma bela participação, mas dele eu falo depois.

Direção: Lô Politi.

Roteiro: Lô Politi e Élcio Verçosa.

Ano: 2015.

País: Brasil.

Reação do espectador: Risos e questionamentos audíveis de “podia ser melhor, né?”.

– Dia 8

“Terceira Pessoa” – Mostra Geração – VideoForúm

Roteiristas e diretor promissores. O melhor. Sacanagem, falta um inimaginável caminho.

Então, participei do Festival do Rio exibindo um filme próprio. É, é exatamente isso que você leu. Não sei como descrever a alegria e gratidão de fazer parte do Festival. Quando eu, Cinthia e Liporage decidimos fazer um documentário sobre separação de pais, prioritariamente mostrando a visão do adolescente que já passou por essa realidade, não podíamos imaginar o tamanho da transformação que causaríamos em nós mesmos e naqueles que assistiram.

Contei histórias através do cinema, mostrei vidas. Pude compartilhar o projeto com grandes amigos. Tive um filme exibido em tela grande. Foi tudo lindo. Até o mestre de cerimônia do evento era bonito. O jovem pode e deve fazer cinema. Todo mundo deveria ter acesso ao mundo cinematográfico, seja como produtor ou espectador, ambos são essenciais. Obrigado aos amigos, professores e meus pais que estiveram presentes desde o momento de pré-produção até a exibição do mini-doc. Eu amo vocês. Lembrem-se: estão deixando sonhar.

Direção: Victor Hugo Liporage.

Roteiro: Lucas França, Cinthia Martins e Victor Hugo Liporage.

Ano: 2015.

País: Brasil.

Reação do Espectador: “Te amo, filhinho!”. Minha mãe, aquela diva.


– Dia 10

Dois filmes seguidos. Muito cinema e amor para distribuir.

“Aspirantes” – Première Brasil

Pensa aquela palma lenta, que você puxa lá de dentro e vai numa crescente, até se misturar com todo o barulho do ambiente. Então, esse fui eu quando o filme acabou. Saí revigorado do cinema, como se tivesse presenciado uma excelente aula de direção. Movimentações suaves que permitiam o espectador se apegar ao momento, além de poucos cortes e ângulos que valorizavam ao máximo o protagonista. Aliás, belíssima atuação do Ariclenes Barroso, que levou porrada, brigou com melhor amigo e beijou na boca. Fez isso tudo e ainda ganhou o prêmio de melhor ator do Festival. O moleque vai longe.

Filme do lado B do futebol nacional, que se sustenta na realidade do esporte pra mostrar uma história de inveja, gravidez na hora errada, amigos boleiros e dificuldades da vida. Apesar de pecar em alguns toques no roteiro e não se aprofundar tanto com certos personagens (o longa é todo de Ariclenes, isso é deixado explícito em todo tempo), o que gera um certo gosto de “faltou algo”, o filme é um golaço (eu precisava).

Direção: Ives Rosenfeld (Prêmio de Melhor Direção de Ficção do Festival).

Roteiro: Ives Rosenfeld e Pedro Freire.

Ano: 2015.

País: Brasil.

Reação do Espectador: *Clap clap clap*


“The Lobster”

Badalado em Cannes, fui ver qual era. Um universo distópico no qual não existe a opção de ficar solteiro. Seria até legal para alguns, se não fosse o fato de você precisar tornar-se um animal caso não encontrasse um companheiro. Engraçado e extremamente trágico, faz uma interessante crítica aos relacionamentos atuais. Os personagens, quase em todo instante, esbanjam uma cara de “nada”. São expressões de um desespero contido, que se retraem por acomodação de existência na trama ou apenas melancolia. Liporage me disse e eu concordei: “Esses filmes gregos sem noção são ótimos”.

No entanto, o filme é cansativo. A sessão terminou e eu me senti como se estivesse sentado no computador digitando por horas. Opa, perdão. A realidade apresentada no longa choca e tem a intenção de atingir diretamente aqueles sentados em cadeiras confortáveis, sejam nas casas ou em salas de cinema.  Vejam, riam, olhem para dentro de si e torçam contra uma moça loira que chuta cachorros. Sem spoiler.

Direção: Yorgos Lanthimos.

Roteiro: Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou.

Ano: 2015.

País: Irlanda, Grécia, Reino Unido, França e Holanda. Deus abençoe a Europa. Ou não.

Reação do Espectador: “Uma bosta!”, bradou a moça da frente. Sabe de nada, ficou com nojinho.


– Dia 14

“Zoom”

Dentre os felizes pontos positivos do filme, antes de tudo, preciso destacar o principal: assisti no Imperator, dez minutos da minha humilde casa. Um longa, dentre mais de uma centena, na Zona Norte. O Festival do Rio aconteceu, predominantemente, no Centro e na Zona Sul da cidade. Os cines ainda são elitizados. Tida como cultura erudita, a sétima arte só chega na Zona Norte, Oeste e quissá Baixada através dos blockbusters, generalizando o cinema como entretenimento de final de semana. Triste realidade que precisa, urgentemente, ser modificada. Cinema é arte, transforma, expande universo e tem de ser acessível para todos.

Eu vi o próprio Mostra Geração, evento do Festival, exaltar os produtos audiovisuais de uma rapaziada de Água Santa, Tijuca, periferia de Recife, refugiados europeus e até de uma galera que veio de Cabo Frio. No entanto, o encontro de todo mundo para exibição dos trabalhos foi em Ipanema, no Espaço Oi Futuro, cinco minutos da praia. Os fatos falam por si só. Enfim, voltemos ao achismo cinéfilo, pois esses dois parágrafos foram cheios de certezas.

Três histórias que se entrelaçam da melhor maneira possível, animação misturada com live action e vários momentos de “ai, minha cabeça explodiu!”. Simplificando, “Zoom” é isso. Caô, estamos aqui para detalhar. Totalmente voltado para estética, seja na própria trama e construção artística do filme ou na crítica ao “bonito”, a noção do longa é toda dada naquilo que se vê e ouve.

A câmera é quase ininterrupta. Vai pra frente, pra trás e até gira em alguns momentos. Apesar dessa loucura, existe um propósito para tudo. O final poderia ter sido melhor trabalhado, mas encaixa bem pelo conjunto da obra. Perdoem-me os estudados em cinema, mas “Zoom” foi o meu favorito. É bonito, divertido, zomba dos filmes “senso comum” e consegue ser levado muito a sério. Ganhou meu coração.

Diretor: Pedro Morelli (também dirigiu “Entre Nós”, um belo filme).

Roteiro: Matt Hansen.

Ano: 2015.

País: Brasil/Canadá.

Reação do Espectador: “França, esse filme é muito irado!”, meu amigo, com o dedo em riste, bem na ponta do meu nariz.

Amores, é isso. Quero agradecer ao Bernardo Rodrigues que me concedeu os ingressos de “Aspirantes” e “The Lobster”. Afinal, o que seríamos de nós sem os amigos? Parabéns ao Festival do Rio com uma bela organização, mas ainda mantenho a crítica: o resto da cidade quer cinema. Ano que vem tem mais, se Papai do Céu quiser.

Xinguem, discutam, contestem, digam que eu não sei nada sobre cinema e esperem de mim um sincero aperto de mão e forte abraço.

Os filmes são vivos.

Feliz, contente, alegre.

por Lucas França. Dia 29 de agosto de 2015, 19:41, lua cheia e sopa de ervilha na mesa do jantar.

Eu comecei a escrever esse texto pensando em discorrer sobre meus relacionamentos amorosos, mas eu apaguei tudo. Na real, eu nem sei sobre o que eu quero falar, só quero escrever. Livre, leve, solto e sem “desmunhecar”. Sem preconceitos, no amor, de coração e todo nariz.

Sem saber por onde começar, quero dizer que estou feliz. Contente e ponto.  É sincero, justo, pessoal e, sei lá por qual razão, estranho. Não é que eu seja uma pessoa triste ou coisa do tipo, pelo contrário, eu até sou o mais empolgado dos meus amigos, mas eu estou realmente alegre.

Feliz, alegre, contente, sorridente, mostrando os dentes. Use qualquer palavra pra tentar definir meu momento. Eu estou isso tudo e mais um pouco. Só não me perguntem o motivo, eu não tenho a menor ideia. Aliás, o que eu mais tenho é razões para não estar explodindo em festa.

Tem conta pra pagar, matemática pra estudar, texto pra escrever, livro pra ler, lugar pra ir e pouco tempo pra dormir. E não é só isso que tá acontecendo. Enfim, esses “problemas” até assustam um pouco e seriam propulsores de grande estresse, mas hoje não. Hoje é dia de dar beijo na boca da meretriz e chamar o cachorro de “meu amor”.

Continuando sem saber por onde começar, quero finalizar porque tem “Narcos” pra assistir. Esse texto sem propósito, encaixado numa sequência de parágrafos com quase o mesmo tamanho e conjugações semelhantes de verbos distintos, é só uma desculpa esfarrapada pra que eu possa olhar, através das minhas linhas, bem dentro do seu olho e dizer:

Irmãozinhos e irmãzinhas, fiquem felizes mesmo que sem motivo. Liga pra tal mina que você sempre quis, ou pro moleque que tira teu sossego. Abraça teu amigo, joga bola com o vizinho, grita “gol” contra seu time rival. Toma sorvete, olha a Lua e agradeça, dá um beijo na tua mãe. Seja simples. Seja feliz.

Uma carta para minha professora

A explanação desta carta é autorizada por mim, Lucas França, um romântico chato, e pela própria Cecília, uma pessoa tão doce que parece torta de chocolate.

Rio de Janeiro, 29 de setembro de 2014

Olá Cecília,

Quando você nos passou a proposta de criação e elaboração de um trabalho sobre a ideia de que existem certas coisas que o homem não tem controle, fiquei pensando e pensando sem parar. Inúmeros modos de fazê-lo me vieram a mente. Imagens, poemas, rimas, músicas, contos, diálogos… Após pensar tanto, cheguei na conclusão que só consigo me expressar, em relação a este tema, da maneira mais honesta e verdadeira que encontrei. Uma carta. Eu, Lucas, com toda liberdade de escrita e elaboração textual falando pra você, professora, o que eu penso a respeito do que é incontrolável.

Creio que exista uma dupla ideia dentro do conceito de “destino”, visto que acredito no fato que sim, temos uma razão para estar aqui e existe algo guardado para cada ser humano no planeta. No entanto, o livre arbítrio de tomada de decisões e escolhas mostra-se fator determinante para o andamento da vida de cada indivíduo. Sendo apresentados estes dois lados da “moeda do destino”, se assim posso dizer, penso que até certo ponto trilhamos um caminho já decidido, mas no entanto, quem faz esse caminho somos nós mesmos. No fim as coisas não mudam, mas o meio pelos quais nós chegamos no final pode ser alterado. Talvez, tão alterado que até o mude o desfecho.

Ao pensar no caso de algo incontrolável, pensei em duas coisas, dois sentimentos que, apesar de tudo, são mais concretos do que qualquer coisa. Amor e dor. Uma linha tênue os separa. Pobre linha. Durante uma vida, é impossível não amar, faz parte do destino. Amar o próximo, amar seu time, seus pais, sua namorada, seu cachorro. Amar, pura e simplesmente. Não digo aquelas pessoas que espalham amor por aí e tudo mais. Só amar alguma coisinha já basta.

Sentir dor entra no mesmo caminho. Dor de cabeça, dor de barriga, dor no pé… Mas a dor na alma bem que podia ser evitável, não é? Uma dor que não se pode lutar, não se pode combater. Ou melhor, até se pode enfrentar tal dor, mas pra isso a disposição de sentir mais dor pra que a dor da alma acabe é pouco atraente aos olhos da grande maioria das pessoas.

Dor e amor, até rimam, de tão juntos que andam.

Intensos, fortes, inevitáveis. Em algum momento no decorrer de nossas vidas ficaremos reféns desses sentimentos. Que fique claro que o amor é supremo, pois pode tanto causar quanto acabar com uma dor. Doce amor, amargo amor.

Espero que você entenda o que quis transmitir, professora. Que você saiba que suas aulas têm me ajudado muito, tanto no quesito de ensino como na questão de vida. Minhas quintas-feiras agora fazem sentido. Não é puxa saquismo ou demagogia, é apenas um retorno de seu trabalho.

Com amor, um pouco de dor,

Lucas.

Eu, Jonas e o Bom Ar

por Lucas França

“Corre! Lucas, eu já falei pra você ir se arrumar logo…”, disse minha mãe ao me ver deitado no sofá e supostamente atrasado para igreja. Obediente, levantei e fui até o quarto. Peguei a primeira camisa que vi, alcancei a calça e fui para o banheiro. Veste daqui, se ajeita de lá, levei minha mão até o desodorante. No entanto, o mundo parou e, bem ao lado do tubo de aerosol, percebi a presença do Bom Ar com cheiro de “Campo pela manhã”. Foi aí que eu pensei…

Jonas, desde criança, sofreu bullying por conta do tamanho de seu nariz. Quebrou o cd da Xuxa que dizia “ai meu nariz, parece até um chafariz” e jogou fora seu VHS de “Pinóquio”. Trauma atrás de trauma, ele foi, da sua maneira, enfrentando a vida e falando para si mesmo que tudo iria passar, um dia ele venceria. Era isso que ecoava em sua mente.

Na adolescência, mais problemas. Jonas não tinha muitos amigos, ficava sempre quieto em seu canto, tentando evitar o inevitável: ser feito de piada. Era só chegar perto de uma menina que o grito de “não vai roubar o ar” podia ser escutado por toda escola. Em seu aniversário de 18 anos, uma espinha surgiu na ponta do nariz. Imagine a dor, nem os pais tiraram Jonas do banheiro. Novamente, sentado no chão frio e chorando, a promessa de vitória foi feita.

Já adulto, Jonas começou a trabalhar como estoquista numa fábrica de produtos aerosol. Não parava de empacotar, carimbar e fazer relatórios de distribuição. Cansativo, porém honesto. Certo dia, comum e atarefado, o chefe de Jonas entrou no estoque falando para ninguém e gritando para todos: “O consultor de cheiros não quer mais trabalhar, diz ele que foi para a Boticário! Alguém me ajuda!”. Num encontro de olhares, ocorreu o amor a primeira vista.

Jonas sorriu para seu chefe, que o chamou para uma conversa em sua sala. No ato, já havia promovido o menino para o cargo de Consultor de Cheiros oficial da empresa. A dia da vitória havia enfim chegado. Jonas chegou em casa e contou a notícia para seus pais. Estranhando um pouco, mas percebendo a felicidade do filho, não demoraram a abraçá-lo e desejar-lhe o maior “parabéns” possível.

O menino, um dia tímido e retraído, hoje era referência no que fazia. Dava palestras, era o homem da empresa. Fazia cursos de aperfeiçoamento para conseguir identificar diversos cheiros. Numa de suas palestras, se apaixonou e por Rita, uma menina nova e de nariz parecido. Havia encontrado sua alma gêmea. Casaram, tiveram filhos. Por obra divina, nenhum dos dois narigudo, mas ambos com seis dedos no pé esquerdo. Faz parte.

Certa vez, numa viagem de férias, Jonas e sua família foram para os campos sulinos do Brasil. No último dia de viagem, o chefe da família acordou cedo e foi se sentar no chão,  no mato, para sentir os últimos momentos de contato com a terra. Sentou e respirou fundo. Seu mundo parou e num grito, infartou: “É isso, cheiro de Campo pela manhã!”. Trágico, morreu ali, com o eco de sua voz correndo até a casa de sua família.

Jonas ficou eternizado nas memórias da empresa e o cheiro que descobriu, vive pra sempre nos nossos lares, refrescando-nos quando não temos mais esperanças de odores melhores. Enquanto isso, eu terminei de me arrumar. Minha mãe brigou comigo pelo atraso. Mandei ela ir cheirar Bom de Ar de “campos pela manhã”. Que Jonas me ajude.

Um passeio com a minha avó e concepções das imagens divinas

por Victor Hugo Liporage, à minha vó, que me criou pra ser um leite com pêra consciente.

Visitei o Centro do Rio com minha vó essa semana. Nós estávamos mais especificamente nos arredores do Tribunal de Justiça do Estado, esperando o ônibus para voltar pra casa. A senhora minha vó, Sueli, no auge dos seus setenta, estava bem animada por passear com seu netinho numa manhã de sábado. Ela me convidou a visitar a Igreja de São José, e foi aí que tudo começou.

Me disse que atrás da capela da Igreja tem um “segredo”. Eu perguntei que tipo de segredo e ela respondeu que se me contasse, eu não ia querer mais visitar. Resolvi conhecer a igreja, mas estava fechada. Tadinha da velhinha, ficou frustrada. “Logo no sábado?”, e ainda acrescentou, “acho que agora eles só abrem em dia de casamento, porque ultimamente só tem ido gente de dinheiro casar por lá”.

Minha vó é uma exímia senhora de setenta. Ama a família, é tradicional (um tanto ignorante em certos aspectos, mas é de se entender, cresceu nos anos cinquenta) e de uma inocência que só ela. A Sueli estava tão animada que me convidou pra ir na Praça XV. Eu disse que não. Ela ainda insistiu mais um pouco, mas minha preguiça falou mais alto. Pegamos nosso ônibus e viemos a caminho de casa.

Ainda assim, ela não queria contar o tal segredo da Igreja de São José. Mas argumentei de maneira tão formidável quanto um advogado do STF ao dizer, “Pô, vó. Se você não me contar, eu procuro na internet”. Aí ela não resistiu e desembuchou de vez.

“Atrás da capela, tem uma imagem do Nosso Senhor e é igualzinha a ele! Chego a arrepiar”…

Então era esse o segredo, atrás da capela uma imagem fidedigna de Jesus. Foi nessa hora que perguntei, “como você sabe que era uma imagem fiel de Jesus, vó?”, “ah, pelo que eu vejo nas livros e nas fotos, né”. E aí ainda indaguei mais uma vez, “por isso? Mas e se Jesus fosse careca?”. Minha vó completou “não, ele nunca foi careca”.

Sueli cresceu numa família católica e conservadora, nos subúrbios da cidade do Rio. Ela nunca foi a outro país. Quanto a outros estados, só uma vez, justamente para acompanhar uma missa do Pe. Marcelo Rossi em Aparecida do Norte. Ela é muito fiel a sua religião e pouco aberta a outros segmentos religiosos, mas não é a única. A maioria massiva da sociedade brasileira tem essa característica, principalmente os que nasceram antes de 1950. Minha vó passa por uma oferenda de umbanda na rua e pede licença; vê alguém de véu no Jornal Nacional e chama de terrorista. Ela é xenofóbica? De maneira nenhuma, é apenas muito inocente e pouco conhece do mundo.

Tudo bem, quem sou eu pra falar de “conhecer do mundo”, não completei nem a maioridade. Contudo, vivo numa época em que os costumes são outros – nossa sociedade evoluiu. Aceitamos mais os gêneros em minoria, a liberdade de expressão é levada à sério e não há um deslocamento tão grande entre as crenças religiosas. Estamos em contato dia a dia com diferentes tipos de fé, o que ajuda demais na quebra do preconceito. Os católicos mais jovens estão cada vez mais cristãos e ecumênicos. Paradigmas e estereótipos são quebrados na televisão, nos filmes e na vivência do cotidiano. Não cabe mais pensar fechado como a criação que minha vó teve a fez pensar.

religiao

Jesus não precisa ser branco, não precisa ser alto e não precisa ter a complexão de um galã de novela. Jesus não precisa ter cabelo. Nem Jesus, nem Alá, Tupã, Olorum, Brama ou Shiva… Nós não somos a imagem e semelhança de todas essas divindades. Eles é quem são a nossa.  Não devemos criar uma imagem de nossas crenças divinas, e sim, sobretudo, fazer delas um símbolo de fé.

“E se a maconha for da boa, que se foda a ideologia”?

por Victor Hugo Liporage, ao Criolo e sua rapaziada, que não se limitam a mudar o mundo do sofá de casa.

Criolo visitou o Rio em maio e marquei presença. O cantor esbanjou músicas com ideologias pesadas, embasadas e de grande coerência com o cotidiano. Em alguns dos seus versos, Criolo canta bem alto:

“Mudar o mundo do sofá da casa, postar no insta

E se a maconha for da boa, que se foda a ideologia”

Esses versos específicos chamam sempre o público pra cantar junto no show do músico. A casa se envolve e podemos ouvi-los em alto e bom som, partindo de todos. Dá a entender que as pessoas se identificam com a mensagem, né?

“Convoque Seu Buda” Criolo

Pois então.

Me veio a cabeça um discurso arrepiante antes do show. A equipe do Circo Voador, a casa de show em questão, veio anunciar alguns parceiros que estavam na área, dentre eles, uma rapaziada de um movimento contra a redução da maioridade penal. Grande parte da galera presente no evento pegou adesivos e tirou fotos estampando o símbolo do grupo.

Durante o show, essas mesmas pessoas estavam reunidas por lá. Alguns com cigarro, muitos bebendo e outros com um beque de maconha. Criolo entrou, chamou todos a convocarem seu Buda e gritou bem alto o verso “e se a maconha for da boa, que se foda a ideologia”.

Com a redução da maioridade penal, jovens de dezesseis anos já podem ir pra cadeia convencional e recebem pena convencional. Quais são seus crimes? Furtos, posse e, principalmente, tráfico de drogas. Esses meninos que vão a cadeia são viciados ou simplesmente frustrados. Eles querem a todo custo se sentir parte e não tem culpa da marginalização pela qual estão frequentemente submetidos. Quem os financia são seus superiores, que os fazem ter que roubar para pagar pela droga que consomem, ou vender outros tipos de drogas para fazerem dinheiro. Dentre essas drogas, a maconha.

A maconha é uma droga? Sim. Assim como o álcool e a bebida também são, mas esses estão legalizados. A questão não é se a maconha faz mal ou não – ao meu ver, muito menos que a nicotina e o álcool – e sim o fato dela, por lei, não poder ser comercializada. O tráfico controla seu comércio. Seus soldados são homens feitos, mas muitos deles também são menores. Quem financia o tráfico? O indivíduo que compra a droga.

Esse indivíduo a consome na praia, em casa ou na casa de show. Ele canta o verso que contradiz todas suas práticas e cola adesivo em campanha contra a redução da maioridade penal. Mal sabe ele que, indiretamente, está contribuindo dia a dia para o direcionamento de mais e mais jovens ao crime.

Entendam: a crítica não é ao consumo da cannabis sativa ou a todas pessoas que estavam naquele show e cantaram juntas aquele verso no início do texto. O problema está no financiamento ao tráfico e o quanto as pessoas podem contradizer suas virtudes. Na real, todo mundo sabe que é errado comprar maconha na boca de fumo. Mas muita gente gosta de consumir de maconha e o único meio de adquiri-la é esse. Todo mundo sabe que tem menor de idade por ali. Todo mundo sabe que esse negócio pode dar cadeia, para ambas as partes, inclusive. Mas parece que o pensamento é de que se a maconha for da boa, que se foda a ideologia.

Mudar o mundo do sofá da casa, repetindo a esmo os versos de Criolo e indo contra seu pensamento sem nem notar, só vai nos fazer retroceder. Se o movimento é pela descriminalização da maconha, vamos protestar, apresentar bons argumentos e compartilhar a ideia. Agora, se queremos reivindicar a presença de menores de dezesseis na cadeia, façamos isso de consciência limpa. Se a gente quer ouvir um bom som e se identificar com a moral passada, vamos fazer jus a moral.

“Ou colocamos nossas crianças na escola em tempo integral, com qualidade de ensino, de alimentação, esportes, tratamento dentário e de saúde, ou daqui há 20 anos estaremos trancados em casa, com medo de criança” Darcy Ribeiro