Meu eu encadernado

Pra minha mãe, que um dia me deu esse caderno e disse: “para de encher a paciência e vai passar o tempo!”. O tempo ainda tá passando

Tá vendo esse caderno? Ele me salvou algumas vezes. Vou explicar melhor.

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Hoje, dia 1 abril de 2016, faz dois anos que eu escrevo nele. Tal caderno já passou por: três términos de relacionamentos, o ensino médio, um acesso à faculdade, brigas e reconciliações com os pais, algumas viagens, declarações de amor nunca lidas, muitos filmes, manifestos de revolta contra eu mesmo, orações e uma porrada de porradas.

Comemoro esse aniversário com a certeza de que, após minha entrada no universo da escrita, me sinto mais leve e verdadeiro. Acredito muito que transpassar sentimentos e ideias pro papel ou pro computador são formas de se expor e dialogar. Nos tempos sombrios nos quais estamos passando, me parece que o diálogo, consigo próprio e com os outros, iguais, é um ato de subversão.

Apesar de todos esses aspectos que aparecem, anseio em dizer que escrever me deu liberdade. Sinto que existo, de maneira inteira e democrática (realidade que vem sendo fortemente atacada, infelizmente), quando pego a caneta. Quase um ritual de autoconhecimento. Nas linhas eu existo sem medo de ser. Não tem problema errar plural, ter letra feia ou usar parágrafo com mais ou menos linhas do que o outro.

Sempre que começo a escrever, chega à minha mente alguns pensamentos de pessoas que me inspiram muito a continuar andando por esse caminho de lápis e papel. De maneira breve, posso listá-los aqui:

Rashid – Rapper – “Diário de Bordo (Parte V)”

Quanto mais eu esvazio minha caneta, mais ela pesa.”

Criolo – Rapper – “É o Teste”

“Caneta e caderno, minhas armas descrevi.”

Daniel Gaivota – Professor de Filosofia – Uma de suas muitas aulas que me encantaram

“Uma folha em branco, na realidade, não está ali pra ser preenchida, mas sim pra ser esvaziada.”

Sugiro que vocês tenham um lugar pra esvaziar as canetas. Foi uma das melhores coisas que aconteceu aqui desse lado da Zona Norte carioca.

Parabéns pro caderninho, estou salvo. Apesar de ninguém te ler, eu aprendi a me expor.

PS: o símbolo na capa é o “num”, letra “N” do alfabeto hebraico e tem como significado “Nazareno”. Em certa ocasião, cristãos do Iraque tiveram suas casas e negócios marcados com tal símbolo. Identificados, eram obrigados a seguir o caminho da ISIS, fugir ou morrer. Serve como uma lembrança, pra me mostrar que o pulso ainda pulsa e que eu preciso continuar falando, escrevendo e me movimentando.

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Uma Carta ao Alê Abreu

Sobre voltar a ser criança e perceber o quão bom é ser infantil.

Cidade do México, 16 de janeiro de 2016. Duas horas depois de ter assistido ¨O Menino e o Mundo¨ na Cineteca Nacional.

Oi Alê,

Meu nome é Lucas França da Silva, tenho 18 anos, carioca e estou te escrevendo essa carta como um simples agradecimento.

Vi ¨O Menino e o Mundo¨ e posso te dizer que refleti e fiquei muito feliz. Cresci assistindo animações, aquelas mais tradicionais possíveis. Conforme fui crescendo, as deixei um pouco de lado. Passei a acreditar que elas fossem de um universo infantil. Para minha surpresa, eu estava certo, porém com a intenção errada. A jornada do Menino fez com que eu voltasse a olhar para minha criança interior e percebesse o quão grandiosa, corajosa e sincera ela pode ser. Obrigado.

Algo que me chamou atenção foi o momento de despedida do Pai com o Menino. Tornando esse momento o mais íntimo possível, era daquele jeito que eu fazia com meu próprio pai. Agarrava as pernas e acreditava que ele iria, mas com certeza estaria de volta logo, logo. Lembrei da minha infância, quando eu não entendia a língua dos adultos, dos meus pais, mas queria estar perto deles a todo custo. Agora que estou longe, na Cidade do México, esse momento só se intensificou. Obrigado.

Durante todo meu Ensino Médio, estudei Roteiro para Mídias Digitais, no Colégio Estadual José Leite Lopes e pude me aproximar da realidade cinematográfica. Sabendo da indicação de “O Menino e o Mundo” ao Oscar, quero te agradecer por fazer a rapaziada como eu, que é apaixonada por cinema, acreditar na sétima arte nacional. Não é pelo prêmio, longe disso, mas sim por fazer o Brasil crer.

Não retirando o tom de agradecimento e alegria, o único fator que levemente me entristece é o público alcançado com o filme. “O Menino e o Mundo” deveria ser distribuído amplamente, saindo de festivais e salas de cinema menos acessíveis. Do Oiapoque ao Chui, o Menino precisa passar por diversos mundos existentes no nosso país.

Falo de verdade verdadeira. Ganhando ou não o Oscar, passando no Rio, México, EUA, Europa ou nos lugares mais malucos do mundo, “O Menino e o Mundo” me fez sentir, sorrir, sonhar e acreditar. O cinema é isso. Obrigado por fazer cinema. Cinema brasileiro aos olhos de um criança, como diria Emicida.

Obrigado.

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Este texto é o segundo dos filmes brasileiros relacionados ao Oscar 2016. O primeiro é o “Uma Carta à Anna Muylaert”, do Victor Liporage e se encontra aqui.

Dias de Classe A

Aos que catam lixo e dizem “obrigado”.

Eu sou Lucas França, tenho 18 anos, moro em Piedade (perto da Igreja de São Jorge), Zona Norte carioca, e passei meu Natal no Sheraton Barra, hotel 5 estrelas, separado da praia por apenas dois sinais de pedestre. Graças ao bom Deus e as boas amizades que cultivamos na vida, eu, meus pais e uma outra família amiga, convidados por um amigo, tivemos a oportunidade de viver, por poucos dias, a realidade classe A do Rio de Janeiro. Confesso que vi muitas coisas estranhas.

Alternando entre cama e praia, eu me obrigava a observar certos acontecimentos ao meu redor. Poucos “bom dia” e “obrigado” eram ditos entre hóspedes e moradores, independentes de nacionalidade. No elevador, era entrar mudo e sair calado. Governantas, garçons e seguranças, sempre transitando pelo hotel, eram bastante receptivos. Gente da gente.

Sem me alongar muito, o que me instigou a escrever esse relato foi a foto abaixo.

12436122_898705383541217_632598333_nGarrafas de Chandon (avaliadas em cerca de 75 reais cada), latas de cerveja Heineken e água. Cadeiras do Sheraton, toalhas do Sheraton, barraca do Sheraton e, ao fundo, o próprio Sheraton.”

Contextualizando, este espaço na praia, localizado exatamente no meio das duas torres do hotel, é tomado por cadeiras e utensílios Sheraton, numa completa apropriação e privatização da areia, visando o conforto dos hóspedes. A foto acima é o lixo deixado por pessoas que se utilizaram da área especial. Garrafas de Chandon e cervejas importadas deixadas no ambiente que, em tese, deveria ser público.

Ao final do dia, alguns rapazes, de maioria preta, se reúnem e recolhem o lixo deixado pelo pessoal das cadeiras bonitas e toalhas confortáveis. Convenhamos, imagina se no dia seguinte o pessoal chega na areia de novo e encontra tudo sujo, com restos espalhados… Que tragédia seria.

Gilberto Freire, em 1933, ao publicar o livro “Casa Grande e Senzala”, marcou diversos fatores de exclusão social, econômica e racial que construíram a sociedade brasileira. Os hóspedes do Sheraton, em 2015, marcam diversos fatores de exclusão social, econômica e racial que, infelizmente, ainda fazem parte da sociedade brasileira.

Ademais, algumas informações um tanto quanto notórias:

– Terral, restaurante do hotel, com vista para o mar, tem seu preço estipulado de 69 reais até 85 por pessoa, dependendo do dia e o que se vai comer.

– A diária do hotel varia entre 880 e 2000 reais.

– O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da Barra da Tijuca, bairro no qual o Sheraton está estabelecido, é igual a 0.959, tido como “de alto desenvolvimento”.

– Dar bom dia e recolher lixo de Chandon e Heineken, é de graça e ainda ajuda a limpar a praia.

Este relato não é algum tipo de repúdio ou degradação da imagem do hotel, pelo contrário, é um incentivo ao Sheraton para que eduque seus hóspedes e moradores. Um estímulo à boa vivência. Trabalhar a empatia é uma virtude 5 estrelas.

E se Jesus…?

Dedicado à minha mãe, que não parou de perguntar até agora “cadê aquele texto bem legal sobre Jesus?”. 

Sim, eu sou evangélico e frequento uma simpática igreja no Méier, bairro da Zona Norte carioca. Não, eu não quero seu dízimo nem vou te discriminar.

Certo dia eu estava na escola dominical (uma “aula” sobre a Bíblia e suas passagens). O assunto que estava em pauta era a representatividade de Jesus para o povo Judeu. Conversa vai e história vem, o seguinte diálogo começou:

– Pessoal, os judeus não viam Jesus como messias, salvador. Ele era mais um “profeta”, um cara diferente.

– É verdade tia, eu bem lembro daquela história de Jesus entrando na cidade de burrinho. Isso é mais um motivo, né? Eles idealizavam um salvador grandioso, com a aparência poderosa. Imagina um Jesus Boladão!

A partir disso, as pessoas começaram a elucubrar sobre uma outra realidade de Jesus, diferente da verdade humilde e pobre que Ele viveu. Falaram em “MC Jesus”, andando pela Galiléia de cordão de ouro e sandália importada. Jesus Maromba, envolvido na academia, forte e musculoso. Até em rapper gangster eu ouvi Ele sendo posto.

Pensem comigo. “Atenção rapaziada do baile, chegou a hora do DJ mais esperado da noite. Com vocês, Nazarenoooooo!”. E a Jesus sobe no palco e diz: “Salvem-me, a paz de meu pai!”. Tá, é bizarro, desculpa por isso. Eu gosto muito Desse cara que me permito criar essas coisas.

Mediante essas novas faces de Jesus, fiquei imaginando na real figura humana que Ele deveria ter. Afinal, Ele foi homem de carne e osso, até chorou. Dois pontos principais e que irão guiar esse texto surgiram na minha mente: o local onde Ele nasceu e o que pregava.

Jesus nasceu em Belém, uma cidade da Cisjordânia, dez quilômetros ao sul de Jerusalém. Sendo assim, pode-se ressaltar que nosso amigo não era um perfil europeu-loiro-claro-branquelo. Coloquem um árabe na frente de vocês. Sem cabelo liso, altura mediana e um tom de pele pardo. Colocaram? Então, Jesus deveria ser bem parecido.

Vamos ao segundo ponto. Jesus era um cara humildão, trocava ideia com todo mundo, até andou com uma rapaziada meio “underground” pra pregar o amor. A morte dele na cruz foi por amor, sem ver a quem. Amou todo mundo acima de tudo. Ouvia a criançada, contava história e dizia pra dividirmos as coisas.

Aí os caras hoje querem pregar sobre prosperidade exacerbada, inventam campanhas milagreiras e, o pior de tudo, brincam com sentimento e realidade dos mais necessitados, prometendo vitória atrás de vitória. Deturparam Jesus. Transformaram-no num caucasiano cabeça em pé que só olho pros “seus”.

Enfim, eu gosto do meu Jesus “vida real”. Rapper, gangster, maromba, sei lá. Imaginem como quiser, só não digam o contrário do que Ele falou. Não apaguem a mensagem de um cara que é puro amor.

Beijos e fiquem com Jesus.

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O breve achismo de um pseudo-cinéfilo romantizado.

por Lucas França. Talvez eu saiba de cinema. Com certeza eu sei de nada.

2014 não deu para comparecer, mas nesse ano eu não podia deixar de ir. Vai aqui o meu breve “achismo” dos filmes que assisti no Festival do Rio de 2015, durante as duas semanas iniciais de outubro. Pois crítica ou análise é pra gente importante.

– Dia 5

“Jonas”

Maluco, que filme ruim. Ok, quem sou eu para dizer se o longa é bom ou ruim, não é? Culpem meus professores que me ensinaram a cultivar um senso crítico. Enfim, vamos à análise. “Jonas” acaba sendo, numa tentativa de poetizar e impactar, completamente sem noção. Os personagens são “arremessados” e tudo acontece, sem necessidade, em um ritmo atropelado e desordenado. É possível notar que houve uma grande produção para o filme, o que só aumenta a tristeza de ver que pouca coisa deu certo. Falta um certo apreço pelo roteiro e como ele se constrói. Como disse, parece que tudo é jogado, batido no liquidificador de mal jeito e dado ao espectador numa imagem bonita. Esse filme é o milkshake do McDonald’s da Av.Rio Branco na hora do almoço.

Algumas cenas são interessantes, existem certas tentativas de movimentos de câmera, mas o filme não passa disso. Apenas visualmente bonito. Um possível destaque para o Criolo falando “Babilônia”, uma criança distribuindo tapas na cara com sua atuação e a Laura Neiva, porque… Bom, porque é a Laura Neiva. Rapaziada, que mulher. Deus abençoe. Ah, o Ariclenes Barroso também está nesse filme, fazendo uma bela participação, mas dele eu falo depois.

Direção: Lô Politi.

Roteiro: Lô Politi e Élcio Verçosa.

Ano: 2015.

País: Brasil.

Reação do espectador: Risos e questionamentos audíveis de “podia ser melhor, né?”.

– Dia 8

“Terceira Pessoa” – Mostra Geração – VideoForúm

Roteiristas e diretor promissores. O melhor. Sacanagem, falta um inimaginável caminho.

Então, participei do Festival do Rio exibindo um filme próprio. É, é exatamente isso que você leu. Não sei como descrever a alegria e gratidão de fazer parte do Festival. Quando eu, Cinthia e Liporage decidimos fazer um documentário sobre separação de pais, prioritariamente mostrando a visão do adolescente que já passou por essa realidade, não podíamos imaginar o tamanho da transformação que causaríamos em nós mesmos e naqueles que assistiram.

Contei histórias através do cinema, mostrei vidas. Pude compartilhar o projeto com grandes amigos. Tive um filme exibido em tela grande. Foi tudo lindo. Até o mestre de cerimônia do evento era bonito. O jovem pode e deve fazer cinema. Todo mundo deveria ter acesso ao mundo cinematográfico, seja como produtor ou espectador, ambos são essenciais. Obrigado aos amigos, professores e meus pais que estiveram presentes desde o momento de pré-produção até a exibição do mini-doc. Eu amo vocês. Lembrem-se: estão deixando sonhar.

Direção: Victor Hugo Liporage.

Roteiro: Lucas França, Cinthia Martins e Victor Hugo Liporage.

Ano: 2015.

País: Brasil.

Reação do Espectador: “Te amo, filhinho!”. Minha mãe, aquela diva.


– Dia 10

Dois filmes seguidos. Muito cinema e amor para distribuir.

“Aspirantes” – Première Brasil

Pensa aquela palma lenta, que você puxa lá de dentro e vai numa crescente, até se misturar com todo o barulho do ambiente. Então, esse fui eu quando o filme acabou. Saí revigorado do cinema, como se tivesse presenciado uma excelente aula de direção. Movimentações suaves que permitiam o espectador se apegar ao momento, além de poucos cortes e ângulos que valorizavam ao máximo o protagonista. Aliás, belíssima atuação do Ariclenes Barroso, que levou porrada, brigou com melhor amigo e beijou na boca. Fez isso tudo e ainda ganhou o prêmio de melhor ator do Festival. O moleque vai longe.

Filme do lado B do futebol nacional, que se sustenta na realidade do esporte pra mostrar uma história de inveja, gravidez na hora errada, amigos boleiros e dificuldades da vida. Apesar de pecar em alguns toques no roteiro e não se aprofundar tanto com certos personagens (o longa é todo de Ariclenes, isso é deixado explícito em todo tempo), o que gera um certo gosto de “faltou algo”, o filme é um golaço (eu precisava).

Direção: Ives Rosenfeld (Prêmio de Melhor Direção de Ficção do Festival).

Roteiro: Ives Rosenfeld e Pedro Freire.

Ano: 2015.

País: Brasil.

Reação do Espectador: *Clap clap clap*


“The Lobster”

Badalado em Cannes, fui ver qual era. Um universo distópico no qual não existe a opção de ficar solteiro. Seria até legal para alguns, se não fosse o fato de você precisar tornar-se um animal caso não encontrasse um companheiro. Engraçado e extremamente trágico, faz uma interessante crítica aos relacionamentos atuais. Os personagens, quase em todo instante, esbanjam uma cara de “nada”. São expressões de um desespero contido, que se retraem por acomodação de existência na trama ou apenas melancolia. Liporage me disse e eu concordei: “Esses filmes gregos sem noção são ótimos”.

No entanto, o filme é cansativo. A sessão terminou e eu me senti como se estivesse sentado no computador digitando por horas. Opa, perdão. A realidade apresentada no longa choca e tem a intenção de atingir diretamente aqueles sentados em cadeiras confortáveis, sejam nas casas ou em salas de cinema.  Vejam, riam, olhem para dentro de si e torçam contra uma moça loira que chuta cachorros. Sem spoiler.

Direção: Yorgos Lanthimos.

Roteiro: Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou.

Ano: 2015.

País: Irlanda, Grécia, Reino Unido, França e Holanda. Deus abençoe a Europa. Ou não.

Reação do Espectador: “Uma bosta!”, bradou a moça da frente. Sabe de nada, ficou com nojinho.


– Dia 14

“Zoom”

Dentre os felizes pontos positivos do filme, antes de tudo, preciso destacar o principal: assisti no Imperator, dez minutos da minha humilde casa. Um longa, dentre mais de uma centena, na Zona Norte. O Festival do Rio aconteceu, predominantemente, no Centro e na Zona Sul da cidade. Os cines ainda são elitizados. Tida como cultura erudita, a sétima arte só chega na Zona Norte, Oeste e quissá Baixada através dos blockbusters, generalizando o cinema como entretenimento de final de semana. Triste realidade que precisa, urgentemente, ser modificada. Cinema é arte, transforma, expande universo e tem de ser acessível para todos.

Eu vi o próprio Mostra Geração, evento do Festival, exaltar os produtos audiovisuais de uma rapaziada de Água Santa, Tijuca, periferia de Recife, refugiados europeus e até de uma galera que veio de Cabo Frio. No entanto, o encontro de todo mundo para exibição dos trabalhos foi em Ipanema, no Espaço Oi Futuro, cinco minutos da praia. Os fatos falam por si só. Enfim, voltemos ao achismo cinéfilo, pois esses dois parágrafos foram cheios de certezas.

Três histórias que se entrelaçam da melhor maneira possível, animação misturada com live action e vários momentos de “ai, minha cabeça explodiu!”. Simplificando, “Zoom” é isso. Caô, estamos aqui para detalhar. Totalmente voltado para estética, seja na própria trama e construção artística do filme ou na crítica ao “bonito”, a noção do longa é toda dada naquilo que se vê e ouve.

A câmera é quase ininterrupta. Vai pra frente, pra trás e até gira em alguns momentos. Apesar dessa loucura, existe um propósito para tudo. O final poderia ter sido melhor trabalhado, mas encaixa bem pelo conjunto da obra. Perdoem-me os estudados em cinema, mas “Zoom” foi o meu favorito. É bonito, divertido, zomba dos filmes “senso comum” e consegue ser levado muito a sério. Ganhou meu coração.

Diretor: Pedro Morelli (também dirigiu “Entre Nós”, um belo filme).

Roteiro: Matt Hansen.

Ano: 2015.

País: Brasil/Canadá.

Reação do Espectador: “França, esse filme é muito irado!”, meu amigo, com o dedo em riste, bem na ponta do meu nariz.

Amores, é isso. Quero agradecer ao Bernardo Rodrigues que me concedeu os ingressos de “Aspirantes” e “The Lobster”. Afinal, o que seríamos de nós sem os amigos? Parabéns ao Festival do Rio com uma bela organização, mas ainda mantenho a crítica: o resto da cidade quer cinema. Ano que vem tem mais, se Papai do Céu quiser.

Xinguem, discutam, contestem, digam que eu não sei nada sobre cinema e esperem de mim um sincero aperto de mão e forte abraço.

Os filmes são vivos.

Feliz, contente, alegre.

por Lucas França. Dia 29 de agosto de 2015, 19:41, lua cheia e sopa de ervilha na mesa do jantar.

Eu comecei a escrever esse texto pensando em discorrer sobre meus relacionamentos amorosos, mas eu apaguei tudo. Na real, eu nem sei sobre o que eu quero falar, só quero escrever. Livre, leve, solto e sem “desmunhecar”. Sem preconceitos, no amor, de coração e todo nariz.

Sem saber por onde começar, quero dizer que estou feliz. Contente e ponto.  É sincero, justo, pessoal e, sei lá por qual razão, estranho. Não é que eu seja uma pessoa triste ou coisa do tipo, pelo contrário, eu até sou o mais empolgado dos meus amigos, mas eu estou realmente alegre.

Feliz, alegre, contente, sorridente, mostrando os dentes. Use qualquer palavra pra tentar definir meu momento. Eu estou isso tudo e mais um pouco. Só não me perguntem o motivo, eu não tenho a menor ideia. Aliás, o que eu mais tenho é razões para não estar explodindo em festa.

Tem conta pra pagar, matemática pra estudar, texto pra escrever, livro pra ler, lugar pra ir e pouco tempo pra dormir. E não é só isso que tá acontecendo. Enfim, esses “problemas” até assustam um pouco e seriam propulsores de grande estresse, mas hoje não. Hoje é dia de dar beijo na boca da meretriz e chamar o cachorro de “meu amor”.

Continuando sem saber por onde começar, quero finalizar porque tem “Narcos” pra assistir. Esse texto sem propósito, encaixado numa sequência de parágrafos com quase o mesmo tamanho e conjugações semelhantes de verbos distintos, é só uma desculpa esfarrapada pra que eu possa olhar, através das minhas linhas, bem dentro do seu olho e dizer:

Irmãozinhos e irmãzinhas, fiquem felizes mesmo que sem motivo. Liga pra tal mina que você sempre quis, ou pro moleque que tira teu sossego. Abraça teu amigo, joga bola com o vizinho, grita “gol” contra seu time rival. Toma sorvete, olha a Lua e agradeça, dá um beijo na tua mãe. Seja simples. Seja feliz.

Uma carta para minha professora

A explanação desta carta é autorizada por mim, Lucas França, um romântico chato, e pela própria Cecília, uma pessoa tão doce que parece torta de chocolate.

Rio de Janeiro, 29 de setembro de 2014

Olá Cecília,

Quando você nos passou a proposta de criação e elaboração de um trabalho sobre a ideia de que existem certas coisas que o homem não tem controle, fiquei pensando e pensando sem parar. Inúmeros modos de fazê-lo me vieram a mente. Imagens, poemas, rimas, músicas, contos, diálogos… Após pensar tanto, cheguei na conclusão que só consigo me expressar, em relação a este tema, da maneira mais honesta e verdadeira que encontrei. Uma carta. Eu, Lucas, com toda liberdade de escrita e elaboração textual falando pra você, professora, o que eu penso a respeito do que é incontrolável.

Creio que exista uma dupla ideia dentro do conceito de “destino”, visto que acredito no fato que sim, temos uma razão para estar aqui e existe algo guardado para cada ser humano no planeta. No entanto, o livre arbítrio de tomada de decisões e escolhas mostra-se fator determinante para o andamento da vida de cada indivíduo. Sendo apresentados estes dois lados da “moeda do destino”, se assim posso dizer, penso que até certo ponto trilhamos um caminho já decidido, mas no entanto, quem faz esse caminho somos nós mesmos. No fim as coisas não mudam, mas o meio pelos quais nós chegamos no final pode ser alterado. Talvez, tão alterado que até o mude o desfecho.

Ao pensar no caso de algo incontrolável, pensei em duas coisas, dois sentimentos que, apesar de tudo, são mais concretos do que qualquer coisa. Amor e dor. Uma linha tênue os separa. Pobre linha. Durante uma vida, é impossível não amar, faz parte do destino. Amar o próximo, amar seu time, seus pais, sua namorada, seu cachorro. Amar, pura e simplesmente. Não digo aquelas pessoas que espalham amor por aí e tudo mais. Só amar alguma coisinha já basta.

Sentir dor entra no mesmo caminho. Dor de cabeça, dor de barriga, dor no pé… Mas a dor na alma bem que podia ser evitável, não é? Uma dor que não se pode lutar, não se pode combater. Ou melhor, até se pode enfrentar tal dor, mas pra isso a disposição de sentir mais dor pra que a dor da alma acabe é pouco atraente aos olhos da grande maioria das pessoas.

Dor e amor, até rimam, de tão juntos que andam.

Intensos, fortes, inevitáveis. Em algum momento no decorrer de nossas vidas ficaremos reféns desses sentimentos. Que fique claro que o amor é supremo, pois pode tanto causar quanto acabar com uma dor. Doce amor, amargo amor.

Espero que você entenda o que quis transmitir, professora. Que você saiba que suas aulas têm me ajudado muito, tanto no quesito de ensino como na questão de vida. Minhas quintas-feiras agora fazem sentido. Não é puxa saquismo ou demagogia, é apenas um retorno de seu trabalho.

Com amor, um pouco de dor,

Lucas.