As adversidades da mulher contemporânea em 8 filmes

Uma análise da feminilidade no cinema do século XXI. A mulher em seus confrontos contra o mundo, contra a moral e contra si mesma. A partir de oito filmes contemporâneos, conhecemos personagens com um grau de representatividade importantíssimo, sob o pano de fundo situações que vão desde banais à extremamente adversas, como aborto, solidão, homossexualidade, prostituição, gênero, classe social, patriarcalismo e maternidade.

Cinco Graças (Mustang, 2015)

As mulheres que não são mais meninas

Em um vilarejo turco, cinco irmãs – a mais nova, uma criança, e mais velha, quase adulta – vivem presas sob as normas patriarcais, conservadoras e machistas de sua família. Presas não apenas fisicamente, como psicologicamente. Vítimas de uma criação à cabresto, com seus casamentos arranjados e educação para servir de dona de casa, as “cinco graças” são flores desabrochando, mas que se vêem obrigadas a abrir mão de suas feminilidades. A mais nova sonha em ir ao estádio de futebol, numa partida exclusiva para mulheres. Ela e as meninas do vilarejo se reunem e pegam o ônibus à Istambul; já sua irmã mais velha foge à noite pra encontrar o namorado. A saída da “caverna” é o que há de mais significativo para as meninas que cresceram sob restrições. É dever da família estimular a menina a ser mulher. Deixe-a crescer, errar e experimentar. Uma cineasta leva ao Oscar de 2016 um filme com e sobre mulheres, para as mulheres.

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Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011)

A mulher que odeia ser mãe

Precisamos Falar Sobre Kevin é uma história de uma família que fracassou por conta de seu bebê, e de um bebê que fracassou por conta de sua família.

Eva nunca quis ter um filho. Seu marido insistia, ela refutava. Os motivos? Era independente, dona do próprio negócio e fazia viagens frequentes, o que deixava sua vida muito movimentada. Ter um filho a faria abrir mão de tudo aquilo, porque a responsabilidade da maternidade que cai sobre a mulher é enorme, e Eva não estava preparada. Seu filho Kevin cresceu odioso e dissimulado, o que o levou a cometer uma chacina na escola e desenvolver um distúrbio de psicopatia.  A exemplo das manifestações recentes de mães em redes sociais, Eva sempre deixou claro: ela amava seu filho, mas odiava ser mãe, afinal, nem toda mulher precisa ser mãe.

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4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 Months, 3 Weeks, 2 Days, 2007)

A mulher que quer abortar

20 semanas ou 5 meses é o tempo limite para realização de um aborto. O filho de Gabita está há 4 meses, 3 semanas e 2 dias no útero, e a universitária optou por abortar a criança. Mas Gabita não está sozinha, sua amiga Otilia é quem monta toda a logística, alugando um quarto de hotel e contratando o feitor do serviço. Em nenhum momento o pai aparece. Em nenhum momento a família aparece. Se no Brasil a clandestinidade do aborto é chocante, imagine numa Romênia dos anos 80 sob regime ditatorial. A ilegalidade da prática abandona uma moça que simplesmente cometeu um erro e quer solucioná-lo o quanto antes. Certo ou não, o aborto existe, e mesmo sendo contra a lei, não vai parar. A mulher precisa de segurança, suporte e liberdade de escolha, a função do Estado Laico é justamente garanti-la seus direitos. Gabita não os teve e o filme mostra a pior resolução possível da situação. Vencedor da Palma de Ouro em 2007.

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Para Sempre Lilya (Lilya 4 Ever, 2002)

A mulher comercializada

Em seu primeiro filme, Lukas Moodysson mostrou a história de duas meninas que se apaixonam no Ensino Médio. Já em Para Sempre Lilya, seu terceiro filme, o cineasta traz a história de uma menina de 16 anos que vai perdendo se desapaixona pela vida.

Residente de um subúrbio da antiga União Soviética, Lilya mora sozinha, abandonada pela mãe. Ela tem como amigo o jovem Volodya, de 11 anos. No decorrer do filme, Lilya se apaixona por um rapaz que a leva à Suécia prometendo um futuro melhor. Lá, ela se vê mais abandonada que nunca e em meio a um esquema de prostituição. Volodya a encontra em seus sonhos antes da tragédia, e representa para Lilya a inocência de uma infância que ela nunca teve, em função da necessidade prematura por amadurecimento. O filme mostra como a falta da estrutura familiar gera a desestruturação de uma vida, além de representar o destrutivo machismo de uma sociedade que se aproveita da fragilidade da mulher, as fazendo de comércio.

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Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003)

A mulher solitária

Sofia Coppola é uma mulher instrínseca para o cinema, em função de seu olhar sensível e representativo quanto ao feminino. Em Encontros e Desencontros, Charlotte é uma mulher que têm seu copo cheio. O uísque que ela bebe no saguão do hotel traz consigo desde suas frustrações às grandes sabedorias acadêmicas, fruto de sua recém graduação em filosofia. Uma mulher que ao conhecer um homem igualmente solitário, experimenta o novo: tentar esvaziar o copo. Ela já era livre e já experimentava coisas novas, mas nunca com plenitude. Apesar de casada, ao se encontrar com um estranho pelo qual ela cria empatia, Charlotte se vê compreendida. Ela desiste de superar a solidão sozinha. Desiste de ser a super mulher que consegue brigar com a rotina e as convenções relacionamentais: ela opta pelo mais díficil, pelo mais intenso e pelo menos garantindo. Uma mulher à procura de um propósito, visando a felicidade plena e a superação da solidão. Vencedor de Melhor Roteiro Original no Oscar de 2004.

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Tangerine (Idem, 2015)

A mulher que quer ser mulher

Sin-Dee é uma prostituta transsexual que teve seu coração partido pelo cafetão que a traiu. Para fazer justiça com as próprias mãos, ela procura o homem que a magoou pelas ruas de Los Angeles no crepúsculo vespertino de uma véspera de Natal. Com sua amiga Alexandra, também prostituta e transsexual, representam juntas toda a marginalização sofrida pelas trans em situações humilhantes no âmbito da prostituição, roubo e tráfico de drogas, cenário recorrente nas principais metrópoles do mundo. Sin-Dee sonha em ser amada, enquanto Alexandra sonha em ser cantora. Um sonho em comum? Ser mulher. Mas ao mesmo tempo, ambas dividem seu tempo entre punhetas e trocados na Cidade dos Sonhos roubados.

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Que Horas Ela Volta? (Idem, 2015)

A mulher que não baixa a cabeça

Anna Muylaert conseguiu vários feitos para a mulher no cinema brasileiro: elevou Regina Casé, conhecida figura popular, a uma atriz premiada internacionalmente; pôs seu filme em horário nobre de rede nacional e com um alcance gigantesco; esteve na lista prévia de indicados ao Oscar e, sobretudo: fez um filme com mulheres fortes, autênticas e representativas, dentre elas, chama a atenção a personagem Jessica, que bate de frente com a patroa, tenta abrir os olhos da mãe e, ao fim, mostra a sua senhoria que é tão capaz quanto eles. Jessica passa no vestibular e o filho da patroa, não. Uma mulher símbolo da luta de tantas outras brasileiras, vivendo uma situação que é tão absurda quanto verdadeira. A cineasta deu ao cinema nacional uma obra prima, problematizadora e que levanta bandeiras pelas domésticas, pelo preconceito, e por último, mas não menos importante, pela força da mulher que estuda, que limpa chão e que constrói uma família mesmo na adversidade. Em outras palavras, o filme de Muylaert é também uma homenagem à força da mulher brasileira.

que horas

 

Azul é a Cor Mais Quente (La Vie d’Adèle, 2013)

A mulher que quer amar outra mulher

Poucos romances conseguem chegar a sublimidade atingida por Azul é a Cor Mais Quente. Sob as interpretações sensíveis de Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux, a relação homessexual de Emma é Adèle deu ao cinema e ao espectador uma experiência muito mais singela e autêntica que um monte de romances héteros, ao mesmo tempo em que rompeu vários tabus, mostrando sexo quase que explícito entre as duas personagens. Talvez aí esteja o trunfo do filme: o explícito não agride nem choca, mas excita e emociona. Com um relacionamento intenso e irregular como pano de fundo, Azul é a Cor Mais Quente veio para representar as mulheres que se amam e, acima de tudo, humanizá-las. Ao som de “I Follow Rivers”, a gente se apaixona mais por esse rolo gay do que por noventa por cento dos romances “normais” que têm por aí. Vencedor da Palma de Ouro em 2013.

Esse texto é dedicado a minha mãe e minha vó. Sobretudo, dedicado à Millena; menina que com seu jeito mulher me ensina a virar homem.

A todas as mulheres que fizeram e fazem de mim o que sou, feliz Dia da Mulher.

Uma carta à Anna Muylaert

Sobre “Que Horas Ela Volta?” e a previsibilidade da Academia.

Seu filme é o filme brasileiro mais popular dos últimos anos! Lembro bem, liguei a TV de manhã e ouvi, “Camila Márdila e Regina Casé dividem o prêmio de Melhor Atriz Internacional em Sundace”. Na hora, só pensei, “Regina tá ficando famosa internacionalmente? Tenho que conferir esse filme”.

Desde então, foi só sucesso. Várias indicações internacionais e, inclusive, alguns prêmios. Mas acima de tudo, Anna, seu filme incomodou. Fabinho, um sinhôzinho em sua Casa Grande; Dona Bárbara, a patroa e esposa do Barão; e o Barão – sendo Barão – se apaixonando pela filha da empregada.

Se a sua intenção era fazer uma obra cheia de simbolismos e que apertasse a ferida da classe média alta brasileira, acertou em cheio. O mais bonito é que sua equipe de distribuição não se restringiu aos cinemas desta mesma classe média alta, mas ampliou-se aos cinemas populares. E foi a um desses cinema que levei a minha vó.

“Quer ver aquele filme novo da Regina Casé, vó?”

“Você vai me levar pro cinema?”

“Vamos juntos ao cinema, sim, vó.”

“Eu vou! Mas só não passa lá na Zona Sul?”

“Tá passando no cinema do shopping.”

“Me leva!”

Meu primeiro obrigado é esse. Obrigado por terem batido na porta das grandes redes de cinema e negociado com eles a distribuição ampla do filme, caso contrário, eu não teria levado a minha vó. Foram nesses mesmos cinemas populares onde as domésticas puderam ver; se identificar; trazer suas famílias e chorar junto com a Val no momento em que ela entra na piscina. Sabe o que eu acho? “Que horas ela volta?” é uma grande metáfora para a “entrada na piscina”. Entrou em várias piscinas, só não conseguiu entrar no ofurô da Academia.

Imagina a Regina Casé recebendo o Oscar das mãos de Octavia Spencer; que momento! Imagina o seu discurso, Anna, tão ácido quanto seu filme… Foi quase. Para a tristeza do cinema brasileiro, nada disso irá acontecer.

Olha, considero a Academia uma praia particular que a cada ano envia seus convites limitadíssimos aos seus “bons frequentadores”. Tudo bem que o Oscar vem perdendo credibilidade ano a ano, mas sua cerimônia ainda é o maior momento do cinema internacional. Tenho certeza que assisti-la em casa, ano após ano, mexe com seu coração tanto quanto mexe com o meu, de futuro aspirante a cineasta. Mas vai saber, talvez seja tudo uma grande propaganda dessa “praia particular”. Alguns convites caridosos são distribuídos a cada ano, mas no fim, quem têm lugar garantido são as pessoas ilustres e requintadas. No ofurô da Academia, não apenas cabe pouca gente, como quem tá dentro, não sai.

Além do mais, como toda boa festa, às vezes alguém bebe demais e fala algumas “besteiras”. Lembra no ano passado, a Patricia Arquette? É exatamente assim que eu imagino seu discurso: lindas palavras contra o machismo na indústria cinematográfica. Ela foi ovacionada e a produção ouviu calada. Indireta recebida.

Um ano depois, você foi a primeira cineasta brasileira em 30 anos a figurar alguma concorrência no Oscar, mas seu filme não está na lista dos nove pré indicados ao Melhor Filme Estrangeiro, e essa mesma lista tem nove homens… 

É, parece que Arquette estava certa.

Ainda por cima, o cinema europeu domina a lista. Apenas um representante da Ásia e um representante da América Latina fazem parecer que há uma “cota” na Academia. Como se não bastasse, os temas também se repetem. Dos 9 finalistas, seis filmes têm guerra como tema e quatro deles falam sobre o nazismo de alguma forma.

Eu sei que você entende, Anna, mas sempre é bom ressaltar: o objetivo não é fazer juízo de valor do que é bom ou ruim, dizer se você foi injustiçada ou não; mas sim atentar à previsibilidade da cerimônia mais grandiosa do cinema. São várias as temáticas subaproveitadas que poderiam vir à tona num evento de cunho político e social tão grande. Infelizmente, a premiação vem sofrendo uma segmetanção ideológica clara nos últimos anos – repare nos últimos premiados, boa parte deles são uma exaltação ao americanismo.

Vê se você concorda comigo:

Talvez a Academia precisa parar de remoer o Nazismo e se atentar ao terrorismo – mas isso não significa premiar filmes que exaltem as tropas americanas, e sim os que atentam ao sofrimento das mães iraquianas -. As atuações esplendorosas de Leonardo DiCaprio nunca serão recompensadas enquanto forem sobre um antiherói viciado em drogas e bebidas, e o cinema nacional só ganhará um Oscar quando começar a fazer filmes sob medida.

 

Obrigado, Anna, por manter fiel em nosso cinema as brasilidades.

Obrigado, Anna, por não fazer filme sob medida.

Com toda a admiração do mundo,

Victor Hugo Liporage

 

Vítima da estrutura

por Victor Hugo Liporage

Aos meus professores, que sejam eternamente educadores e não treinadores.

Aprendi no Enem que nosso próposito não é aprender, e que os dias 24 e 25 de outubro são uma grande peneira nacional.

Não me entenda mal, esse texto não serve apenas pra malhar o exame; longe disso. Posso dizer que as questões as quais fiz com mais segurança foram de conhecimentos gerais, graças a minha curiosidade irrefreável que me faz ler notícias. E no quesito “conhecimentos gerais” o Enem vai bem. Quer dizer, mais ou menos.

Começo escrevendo minha dissertação com um parágrafo de uma linha, seguido por outro parágrafo que já parte pro que seria o “desenvolvimento”, e logo em seguida converso contigo, leitor, explicando minha metodologia de escrita. Assim, do nada. Não é que eu não concorde com a estrutura preestabelecida de uma redação, mas minha irregularidade serve como exemplo pro meu ponto de vista: somos vítimas da estrutura e o Exame Nacional do Ensino Médio é uma espécie de seleção natural regulada.

Nossa única oportunidade pra estimular o senso crítico é na redação, e o que define nosso ingresso numa faculdade de ponta é interpretação de texto e quantas fórmulas conseguimos gravar. Volto a citar o item “conhecimentos gerais”, algo tão priorizado pelo exame, mas que na maior parte das vezes fica refém de questões com grau de especificidade altíssimo, servindo apenas pra ajudar a mascarar sua importância.

A definição de Seleção Natural é assustadoramente condizente com o que é o Exame Nacional de Ensino Médio. Julgue-me sofista, mas ouso dizer: somos bichos batalhando por um lugar em nosso habitat natural.

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Nos tornamos selvagens e pulamos grades em busca da “comida”, mobilizamos holofotes na tragédia e somos reféns dos mais fortes.

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Entenda bem, há mais fortes, e não mais capazes. Na teoria, somos todos capazes. Se o estudante de colégio privado tem toda uma estrutura que o ajuda é se sair melhor na hora da prova, isso acontece porque ele tem que ser diferenciado, afinal, há cotas raciais para alunos do sistema público de ensino. As cotas são justas? Esse não é o ponto. Mas se existem, a balança pende pra certo lado. A partir do momento que uma “ajuda” é necessária dentro de uma competição, vemos que essa competição não é sadia. E afinal, existe alguma competição sadia?

Nunca fiz pedagogia, muito menos dei aula. Tenho 17 anos e até hoje só fiz uma vez o Enem; quem sou eu pra julgar com unhas e dentes a metologia da prova? Mas falo como um ser humano que, de certa forma, tem experiência. Faço parte do sistema de educação há 15 anos, já não sou mais criança. Nem eu, nem nenhum dos Victor que estavam na minha sala. Nem eu, nem nenhum dos adolescentes que se reuniram por, no mínimo, duas horas pra prestar o concurso Brasil a fora.

Mas beleza, vou tentar. Confesso que tive prazer em fazer as questões de Ciências Humanas – não querendo ser clubista e puxar sardinha pra minha área, já o sendo – mas havia Paulo Freire (este criticando o próprio modelo educacional vigente), ao lado de Simone de Beauvoir e parágrafo formidável de Slavoj Žižek. O que falar de Ciências da Natureza? Infelizmente, minha mãe não pôde me pagar um cursinho. Mas sou grato aos meus professores que tentaram me ensinar da maneira mais didática possível.

Nós, adolescentes, temos muitas boas conversas pra trocar, não precisamos sentar em carteiras separadas. A gente tem muitos bons textos a escrever, não precisamos assinalar qual letra é a mais correta. Não somos terroristas pra ter quer passar por um detector de metais, mas vivemos numa selva onde a concorrência nos leva a querer dar um jeitinho e romper com nossa ética. Mas onde está a ética que o Enem quer que eu saiba definir? Qual é a moral da história?

Está bem, na vida não só faremos coisas das quais gostamos ou são as mais corretas. Se o Brasil é um “país de todos”, que a educação seja pra todos. Um povo com senso crítico leva o país pra frente. Meus professores já me ensinaram isso, mas essa pergunta não caiu no Enem. Não existe meritocracia quando a concorrência é desleal e o avaliador é falho. Cabe muito mais coisa nesse texto, porém fui condicionado a escrever em apenas 30 linhas, sou mais uma vítima da estrutura.

Mamihlapinatapai

Por Victor Hugo Liporage, aos nativos da Terra do Fogo, que conseguiram passar ao mundo suas virtudes da maneira mais humilde possível.

Assisti recentemente A Vida em Um Dia (2011). O filme é uma proposta dos produtores em parceria com o YouTube, na qual os participantes deveriam enviar vídeos contando sobre um dia da sua vida. Nos vídeos, três perguntas deveriam ser respondidas: “o que há no seu bolso?”; “o que você teme?” e “o que você ama?”. As respostas foram momentos de pura autenticidade e comoção.

Um homem cuida de sua mulher que está se recuperando de um câncer, e a pergunta o que ela ama. A esposa, por sua vez, pergunta ao marido o que ele teme. Ele responde: “não temo mais nada”, e completa “acho que meu maior medo era que você tivesse câncer, e você o teve. Depois meu medo era que o câncer voltasse, e voltou. Agora está tudo resolvido, não temo mais nada”. No outro lado do mundo, um rapaz comenta o quanto ama sua geladeira. Uma forma diferente de amor, mas não menos significante.

Em um dos relatos, uma australiana diz o que ama. Diferente da maioria, ela está sozinha numa floresta, com a câmera na mão. Ela diz que ama a palavra mamihlapinatapai, expressão dos extintos nativos da Terra do Fogo, arquipélogo sulamericano. Em suas palavras, ela define mamihlapinatapai como “uma troca de olhares entre duas pessoas, cada qual querendo que a outra tome iniciativa em algo que ambas desejam, mas nenhuma tem a atitude.”

Mamihlapinatapai foi considerada em 2009 pelo Guiness como “a palavra mais sucinta do mundo”, em razão de seu amplo significado, além da sua invejável unidade, não havendo sinônimo próximo que traduza definição parecida.

mamihlapinatapai

A paixão na qual a australiana exemplifica a palavra que ama pode ser posta a altura do significado dessa palavra para as relações interpessoais em nossa sociedade.

Nos moldes atuais, onde essas relações são motivadas por segundos interesses, vaidade e superficialidade, mamihlapinatapai aparece como uma definição para o nosso tempo. Como por exemplo, uma conferência da ONU. Sabemos que Palestina e Israel querem paz para o seu povo, mas ambos se recusam a ceder. Egocentrismo, vaidade ou orgulho, esse não-querer-ceder se repete nas mais simples situações. Pense em quando você era criança. Depois de uma briga, com um colega ou até mesmo com irmãos. Para apartar, um pedido de “paz” era feito por um ser superior (os pais ou a professora), a ser firmado com um mero aperto de mão, mas nem você nem seu “oponente” deixam a birra de lado e resolvem seu conflito; qualquer semelhança com uma conferência de Estado não é mera coincidência.

Na explicação da autora do vídeo, a primeira situação que imaginamos são os vários encontros e desencontros desperdiçados em uma festa, por exemplo, onde duas pessoas querem se conhecer mas não têm coragem de ser aquele que toma a iniciativa. A quantidade de relacionamentos, amizades ou simples experiências de uma noite jogados fora, por mero orgulho ou timidez, são esquecidos na manhã seguinte, mas ao mesmo tempo são impedidos de talvez perpetuar em nossas vidas.

O mal do nosso tempo não tem nome nem razão, nossa raça é muito complexa para apontármos dedos a um só culpado. Vejo mamihlapinatapai de uma maneira um tanto paradoxal, como uma palavra de significado belo mas que propõe uma reflexão que nos deixa um tanto tristes. Uma das maiores frustrações do ser humano é sofrer pelo leite derramado. Depois que aconteceu, já era. Eu, pelo menos, nunca mais esqueço a pronúncia de mamihlapinatapai, e de seu significado pretendo nunca mais ser vítima. Torço para que daqui em diante eu a tenha como algo belo e não como lembraça para minhas frustrações; que a palavra seja eternizada e as práticas exemplificadas pela mesma sejam abolidas. Ao leitor, proponho uma mudança de atitude. Pelo bem comum.

“A experiência é o melhor professor” Georg Wilhelm Friedrich Hegel

Um passeio com a minha avó e concepções das imagens divinas

por Victor Hugo Liporage, à minha vó, que me criou pra ser um leite com pêra consciente.

Visitei o Centro do Rio com minha vó essa semana. Nós estávamos mais especificamente nos arredores do Tribunal de Justiça do Estado, esperando o ônibus para voltar pra casa. A senhora minha vó, Sueli, no auge dos seus setenta, estava bem animada por passear com seu netinho numa manhã de sábado. Ela me convidou a visitar a Igreja de São José, e foi aí que tudo começou.

Me disse que atrás da capela da Igreja tem um “segredo”. Eu perguntei que tipo de segredo e ela respondeu que se me contasse, eu não ia querer mais visitar. Resolvi conhecer a igreja, mas estava fechada. Tadinha da velhinha, ficou frustrada. “Logo no sábado?”, e ainda acrescentou, “acho que agora eles só abrem em dia de casamento, porque ultimamente só tem ido gente de dinheiro casar por lá”.

Minha vó é uma exímia senhora de setenta. Ama a família, é tradicional (um tanto ignorante em certos aspectos, mas é de se entender, cresceu nos anos cinquenta) e de uma inocência que só ela. A Sueli estava tão animada que me convidou pra ir na Praça XV. Eu disse que não. Ela ainda insistiu mais um pouco, mas minha preguiça falou mais alto. Pegamos nosso ônibus e viemos a caminho de casa.

Ainda assim, ela não queria contar o tal segredo da Igreja de São José. Mas argumentei de maneira tão formidável quanto um advogado do STF ao dizer, “Pô, vó. Se você não me contar, eu procuro na internet”. Aí ela não resistiu e desembuchou de vez.

“Atrás da capela, tem uma imagem do Nosso Senhor e é igualzinha a ele! Chego a arrepiar”…

Então era esse o segredo, atrás da capela uma imagem fidedigna de Jesus. Foi nessa hora que perguntei, “como você sabe que era uma imagem fiel de Jesus, vó?”, “ah, pelo que eu vejo nas livros e nas fotos, né”. E aí ainda indaguei mais uma vez, “por isso? Mas e se Jesus fosse careca?”. Minha vó completou “não, ele nunca foi careca”.

Sueli cresceu numa família católica e conservadora, nos subúrbios da cidade do Rio. Ela nunca foi a outro país. Quanto a outros estados, só uma vez, justamente para acompanhar uma missa do Pe. Marcelo Rossi em Aparecida do Norte. Ela é muito fiel a sua religião e pouco aberta a outros segmentos religiosos, mas não é a única. A maioria massiva da sociedade brasileira tem essa característica, principalmente os que nasceram antes de 1950. Minha vó passa por uma oferenda de umbanda na rua e pede licença; vê alguém de véu no Jornal Nacional e chama de terrorista. Ela é xenofóbica? De maneira nenhuma, é apenas muito inocente e pouco conhece do mundo.

Tudo bem, quem sou eu pra falar de “conhecer do mundo”, não completei nem a maioridade. Contudo, vivo numa época em que os costumes são outros – nossa sociedade evoluiu. Aceitamos mais os gêneros em minoria, a liberdade de expressão é levada à sério e não há um deslocamento tão grande entre as crenças religiosas. Estamos em contato dia a dia com diferentes tipos de fé, o que ajuda demais na quebra do preconceito. Os católicos mais jovens estão cada vez mais cristãos e ecumênicos. Paradigmas e estereótipos são quebrados na televisão, nos filmes e na vivência do cotidiano. Não cabe mais pensar fechado como a criação que minha vó teve a fez pensar.

religiao

Jesus não precisa ser branco, não precisa ser alto e não precisa ter a complexão de um galã de novela. Jesus não precisa ter cabelo. Nem Jesus, nem Alá, Tupã, Olorum, Brama ou Shiva… Nós não somos a imagem e semelhança de todas essas divindades. Eles é quem são a nossa.  Não devemos criar uma imagem de nossas crenças divinas, e sim, sobretudo, fazer delas um símbolo de fé.

“E se a maconha for da boa, que se foda a ideologia”?

por Victor Hugo Liporage, ao Criolo e sua rapaziada, que não se limitam a mudar o mundo do sofá de casa.

Criolo visitou o Rio em maio e marquei presença. O cantor esbanjou músicas com ideologias pesadas, embasadas e de grande coerência com o cotidiano. Em alguns dos seus versos, Criolo canta bem alto:

“Mudar o mundo do sofá da casa, postar no insta

E se a maconha for da boa, que se foda a ideologia”

Esses versos específicos chamam sempre o público pra cantar junto no show do músico. A casa se envolve e podemos ouvi-los em alto e bom som, partindo de todos. Dá a entender que as pessoas se identificam com a mensagem, né?

“Convoque Seu Buda” Criolo

Pois então.

Me veio a cabeça um discurso arrepiante antes do show. A equipe do Circo Voador, a casa de show em questão, veio anunciar alguns parceiros que estavam na área, dentre eles, uma rapaziada de um movimento contra a redução da maioridade penal. Grande parte da galera presente no evento pegou adesivos e tirou fotos estampando o símbolo do grupo.

Durante o show, essas mesmas pessoas estavam reunidas por lá. Alguns com cigarro, muitos bebendo e outros com um beque de maconha. Criolo entrou, chamou todos a convocarem seu Buda e gritou bem alto o verso “e se a maconha for da boa, que se foda a ideologia”.

Com a redução da maioridade penal, jovens de dezesseis anos já podem ir pra cadeia convencional e recebem pena convencional. Quais são seus crimes? Furtos, posse e, principalmente, tráfico de drogas. Esses meninos que vão a cadeia são viciados ou simplesmente frustrados. Eles querem a todo custo se sentir parte e não tem culpa da marginalização pela qual estão frequentemente submetidos. Quem os financia são seus superiores, que os fazem ter que roubar para pagar pela droga que consomem, ou vender outros tipos de drogas para fazerem dinheiro. Dentre essas drogas, a maconha.

A maconha é uma droga? Sim. Assim como o álcool e a bebida também são, mas esses estão legalizados. A questão não é se a maconha faz mal ou não – ao meu ver, muito menos que a nicotina e o álcool – e sim o fato dela, por lei, não poder ser comercializada. O tráfico controla seu comércio. Seus soldados são homens feitos, mas muitos deles também são menores. Quem financia o tráfico? O indivíduo que compra a droga.

Esse indivíduo a consome na praia, em casa ou na casa de show. Ele canta o verso que contradiz todas suas práticas e cola adesivo em campanha contra a redução da maioridade penal. Mal sabe ele que, indiretamente, está contribuindo dia a dia para o direcionamento de mais e mais jovens ao crime.

Entendam: a crítica não é ao consumo da cannabis sativa ou a todas pessoas que estavam naquele show e cantaram juntas aquele verso no início do texto. O problema está no financiamento ao tráfico e o quanto as pessoas podem contradizer suas virtudes. Na real, todo mundo sabe que é errado comprar maconha na boca de fumo. Mas muita gente gosta de consumir de maconha e o único meio de adquiri-la é esse. Todo mundo sabe que tem menor de idade por ali. Todo mundo sabe que esse negócio pode dar cadeia, para ambas as partes, inclusive. Mas parece que o pensamento é de que se a maconha for da boa, que se foda a ideologia.

Mudar o mundo do sofá da casa, repetindo a esmo os versos de Criolo e indo contra seu pensamento sem nem notar, só vai nos fazer retroceder. Se o movimento é pela descriminalização da maconha, vamos protestar, apresentar bons argumentos e compartilhar a ideia. Agora, se queremos reivindicar a presença de menores de dezesseis na cadeia, façamos isso de consciência limpa. Se a gente quer ouvir um bom som e se identificar com a moral passada, vamos fazer jus a moral.

“Ou colocamos nossas crianças na escola em tempo integral, com qualidade de ensino, de alimentação, esportes, tratamento dentário e de saúde, ou daqui há 20 anos estaremos trancados em casa, com medo de criança” Darcy Ribeiro